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Tino, bom senso e moderação

Pedro Norton

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Não vale a pena pôr a cabeça por baixo da areia: há cólera e há ódio por todo o lado

Os sinais estão por todo o lado e só com muito esforço podemos fazer por não vê-los. A virulência explosiva das críticas a Isabel Jonet (por quem não escondo a admiração) que pulularam nas redes sociais, a maior parte das vezes anónimas e por definição desprezíveis, é um eloquente exemplo. Mas, noutro plano, a alegada tentativa de agressão ao mal amado ministro Miguel Relvas é, sejamos sérios, outro sinal não menos preocupante.

Há raiva, há fúria, há uma agressividade latente, há uma revolta já muito mal contida que borbulha, em crescendo, a poucos centímetros da superfície. Não vale a pena pôr a cabeça por baixo da areia: há cólera e há ódio por todo o lado. Há angústia e há desespero. Há sintomas que cheguem para que percebamos que a sociedade está doente e que o ambiente social está explosivo.

Vale seguramente a pena tentar perceber as razões profundas deste sintoma. Porque é a doença, mais do que o sintoma, que verdadeiramente deve preocupar-nos. E, naturalmente, importa ainda mais atacá-la. Vale seguramente a pena tentar identificar os erros e os responsáveis que nos trouxeram até aqui, os que nos lançaram no desespero e os que não são capazes de nos dar uma réstia de esperança. Mas julgo que não vale menos a pena, em tempos tão desafiantes e perigosos como os que vivemos, fazer alguma pedagogia da moderação.

Em democracia a crítica, contundente, assertiva, frontal, corajosa e, sobretudo, feita às claras, é não só um direito de cidadania como uma "peça" fundamental para o funcionamento eficaz do sistema político. Sem crítica, sem contraditório, sem condições efectivas para a expressão, até das mais absurdas inanidades, não há verdadeira liberdade. Mas dito isto, e especialmente em momentos de instabilidade profunda, não é indiferente a forma e o tom em que se faz o debate no espaço público. Independentemente do que cada um de nós pense da senhora (e eu sou dos que acho que ela conduz a Europa para o abismo), as palavras incendiárias com que Francisco Louçã recentemente se referiu a Angela Merkel (a "assaltante" e "pirata" que "terá resposta" na sua visita a Lisboa) é, neste quadro e em vésperas da sua chegada (escrevo no domingo), um exemplo acabado do tipo de irresponsabilidade política a que me refiro. Mas poderia encontrar muitos outros, de quadrantes políticos opostos, com origem no Governo ou na oposição. E isto para não fugir a falar no populismo alarmista para que infelizmente, aqui e ali, se deixa resvalar a comunicação social. Para não falar na agressividade gratuita de alguma opinião (porventura, dirão alguns com a legitimidade que naturalmente lhes assiste, até a minha opinião). Para não falar na ligeireza com que inúmeros políticos, empresários, jornalistas, sindicalistas, líderes de opinião e muitos outros a quem seria de exigir mais tino e mais juízo, se dedicam a atear o fogo a essas incontornáveis pradarias da modernidade que são os twitters e os facebooks da vida. Pradarias, aliás, tantas vezes insensatamente utilizadas por quem vai perdendo a noção de que a privacidade é um requisito imprescindível da liberdade. Mas derivo e essa é matéria para outra crónica. Por agora, basta-me lembrar que serenidade, bom senso e um mínimo de tento na língua são, hoje mais do que nunca, bens infinitamente valiosos