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Sombras e nevoeiros

Pedro Norton

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É ao Presidente que devemos o facto de a zaragata de miúdos não se ter ainda transformado em crise politica aberta

1 - Não sou, nunca fui, e acho que já não vou a tempo de vir a ser, um indefectível de Woody Allen. O homem gosta de alternar filmes memoráveis (Rosa Púrpura à cabeça) com banalidades insuportáveis. Mas o que é certo é que há um tesourinho de 1991, que não cabe nas listas de melhores filmes de nenhum cinéfilo que se preze, mas pelo qual nutro um especial afeto. Talvez porque Sombras e Nevoeiros seja uma comovente e belíssima homenagem de Allen ao expressionismo alemão dos anos 20 que são os anos de Murnau e Lang, cineastas "muito cá de casa". Talvez. A ação - se não viram, troquem já esta crónica pelo correspondente DVD - desenrola-se numa cidade sem nome, envolta num denso nevoeiro, por onde erram, numa série de absurdos encontros e desencontros, um contabilista neurótico (adivinhem quem), uma milícia de cidadãos, o estrangulador que procuram e meia dúzia de bizarros artistas de um circo, triste e romântico como são todos os circos, que acabara de aportar à inominada cidade.

Mas porque é que me perco nesta curta deriva cinéfila?  Muito simplesmente porque o filme me voltou à memoria ao assistir aos mais recentes episódios da deprimente novela das públicas desavenças na coligação. Parece-me cristalinamente óbvio que os dois partidos do Governo vivem cada vez mais perdidos no nevoeiro espesso de um mundo virtual. Um mundo pateticamente pequeno, de encenações dramáticas, de declarações tonitruantes, de fugas de informação milimetricamente urdidas, de ventríloquos e das respectivas marionetes. Uma guerra de sombras travada no minúsculo campo de batalha que vai da sala de conselho de ministros às editorias de política de meia dúzia de redações. Um circo de golpes rasteiros, de vinganças mesquinhas, de traições de opereta, de deslealdades pueris, de mútuos desprezos e de infinitas desconsiderações. Um mundo perdido no nevoeiro de uma cidade sem nome que é só deles.

E o drama é exatamente esse. O mundo desta guerra virtual, onde se diria que são gastas todas as energias do Executivo e (reconheço) os recursos de muitas redações, é um mundo microscópico, desenhado à exata medida de alguns egos de garoto que, nas horas vagas, governam o País. Um mundo onde, obviamente, não cabem dramas menores como o colapso da economia, a falência de inúmeras empresas, o drama do desemprego, a tragédia da desesperança, as angústias de todos os portugueses que têm de habitar o Portugal de todos os dias.

Sou só eu que acha que tudo isto é obsceno e está na altura de alguém explicar isso mesmo à garotada?

 

2 - Já o escrevi uma vez mas cada vez mais reforço a minha convicção. Ainda não se escreveu a verdadeira história do segundo mandato de um criticadíssimo Cavaco Silva. Quando for escrita, estou seguro de que se tornará claro que é ao Presidente que devemos o facto de a zaragata de miúdos não se ter ainda transformado em crise politica aberta. É verdade que não é particularmente edificante transformar o supremo magistrado da nação em babysitter da coligação. Mas, nesta caricata situação, é, convenhamos, muito maior a responsabilidade dos meninos do que a culpa do Professor.