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Reflexões sobre a desesperança

Pedro Norton

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O Executivo deixou de conseguir ser um portador minimamente credível de uma mensagem de esperança.

Meço as palavras porque não vale a pena somar, irritação à irritação, crispação à crispação, conflito ao conflito. Mas se quiser ser honesto, devo dizer que, noutro tempo, noutro lugar, haveria, provavelmente, tanto de duro como de correto em boa parte das medidas apresentadas ao País por Pedro Passos Coelho, na semana passada. Aumentar horários de trabalho e diminuir férias na função pública, promover uma convergência dos enquadramentos laborais entre público e privado, adiar a idade da reforma e até diminuir o número de funcionários do Estado são medidas, ideologicamente marcadas, é certo, que não podem ser simplesmente enviadas para o baú dos dislates impensáveis. Talvez fosse confortável fazê-lo mas não é assim que penso.

O diabo é mesmo o tempo e o lugar em que o vivemos. Desde logo, e o senão não é pequeno, porque os projetos do Governo serão provavelmente inexequíveis. O ambiente social, laboral e político, o desespero, a crispação e o nível de conflitualidade que são o ar do tempo, encarregar-se-ão de os dinamitar. Por fora ou por dentro de uma coligação governamental que por todos os lados dá sinais de fragilidade.

Depois, porque não são propriamente medidas lançadas a um terreno virgem. São medidas largadas num campo de batalha já muito minado. São medidas que se somam a muitas outras medidas, muitas, sim, de duvidoso tino, que foram criando uma espiral recessiva e um caldo de desespero a que é agora quase intolerável juntar mais uma inevitável quebra de consumo, mais uma evidente deterioração do PIB ou mais um desesperante aumento do desemprego.

Depois ainda, porque se vai ficando com a inquietante ideia de que cada nova dose deste amargo remédio brota, não tanto de uma estratégia clara, de um projeto cristalino ou de uma sólida ideia para o futuro do País, mas de um engulho de última hora que é preciso ultrapassar, em jeito de meia bola e força, e em nome de uma exemplar relação com a troika que está, essa sim, erigida desígnio supremo de toda uma nação.

Mas, sobretudo, porque vai sendo cada vez mais difícil acreditar nos amanhãs que cantam que têm pontuado as solenes declarações ao País do primeiro-ministro. A recuperação ao virar da esquina é um mito mas que deixou há muito de servir como anestésico minimamente eficaz. Foram inúmeros os erros de timing e de comunicação (todos se lembram das promessas do Pontal), foram muitas as peripécias do percurso, foram demais as previsões erradas. E este é o problema capital: o Executivo deixou de conseguir ser um portador minimamente credível de uma mensagem de esperança. Por ténue e frágil que fosse. E sem esperança é muito difícil atravessar desertos.

Dir-me-ão que os meus lamentos nada acrescentam, que o meu ceticismo só agrava a depressão que é já de todos. E eu, humildemente, concedo que sim. Estou tão perdido nesta maldita encruzilhada como qualquer outro. Confesso mesmo que há dias em que tento acreditar no meu país e não consigo.

Mas querem saber o que faço quando acordo assim? Fecho os olhos, cerro os dentes e relembro a mim mesmo que a desesperança é um luxo dos que não têm filhos.