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'Pardon my french: Chapeau'!

Pedro Norton

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Ao romper com uma tradição política com 600 anos, o Papa não deixa de lançar um poderoso e eloquente sinal aos seus homólogos mais terrenos

1. Joseph Ratzinger, o "cardeal panzer", o todo-poderoso perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o grande inquisidor do Vaticano, o rottweiler de Deus, nunca gozou de boa imprensa. É um eufemismo. Nem - não sejamos excessivamente hipócritas - alguma vez terá gerado grandes simpatias. Mesmo em boa parte dos meios católicos. A sua fama precedia-o e antes de o ser, como a pescada, já na verdade o era. Estava escrito nas estrelas, antes ainda de o fumo branco se dissipar na Capela Sistina, que seria um papa austero, conservador, ortodoxo, reacionário. Com um estilo gélido, nos exatos antípodas do seu simpático e popular antecessor, escandalizou o mundo mais progressista com o célebre discurso de Ratisbona; quando catalogou o casamento de divorciados como uma "chaga social"; quando, sem papas na língua (foi mais forte que eu e não resisti ao trocadilho), atacou violentamente a cultura "gay"; quando estendeu a mão aos bispos de Lefebvre; quando sugeriu que o preservativo agravava o problema da sida. É difícil, convenhamos, imaginar catálogo de afirmações mais politicamente incorretas ou ementa mais indigesta para as consciências mais liberais. Ou ainda um discurso mais teimosamente erguido contra o ar dos tempos. Mas o que é facto é que o homem sempre pareceu encontrar um especial prazer na provocação arrogante. E nem a sua aura de intelectual, frágil parede atrás da qual alguns se esforçaram por defendê-lo, o terá impedido de suscitar antipatias epidérmicas um pouco por todo o mundo.

Ora, ele há paradoxos que verdadeiramente não lembram ao Diabo. E a verdade é que o ato de renúncia de Bento XVI, além de uma decisão de uma corajosa lucidez, além de um sinal de comovente desapego, é provavelmente o gesto mais crítico de um Papa de que tenho memória. Tenhamos, nós também, ateus, agnósticos e demais ovelhas tresmalhadas, a humildade intelectual de reconhecê-lo. Pela minha parte, e pardon my french: chapeau!

2. Mas se a renúncia do Papa tem um inegável simbolismo ético, não deixa de ter um profundo significado político. Bento XVI era, é bom não esquecê-lo, Chefe de Estado. E não se trata exatamente de um Estado qualquer. Ritualista, tradicionalista, conservadora por vocação e por necessidade, a Igreja sabe bem que é também ou é sobretudo com o culto dos símbolos que se garante na terra, se não a vida eterna, pelo menos uns bons séculos de poder temporal. Ora, ao romper com uma tradição política com 600 anos - e digo tradição política porque é de política que agora importa falar - o Papa não deixa de lançar um poderoso e eloquente sinal aos seus homólogos mais terrenos. Pois se até o Papa aceita apear-se do trono de São Pedro em nome do interesse geral do seu rebanho...

Ou muito me engano, ou em Luanda, em Madrid, em Londres ou em Havana, por motivos muito diferentes, com contornos muito diversos, paira no ar uma sensação incómoda. E há muito boa gente com as orelhas a arder. Estou a sonhar ou será que já oiço, ao longe, numa voz sumida, alguém que clama: ovelhas de todo o mundo, uni-vos?