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"Pagliacci"

Pedro Norton

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Desta vez, os eleitores italianos encontraram a vingança no regaço de um 'pagliaccio'. Olhemos para a coisa pelo lado positivo: podia ter-lhes dado para um 'Duce' 

É tentador acreditar que aquilo é uma palhaçada só deles. Que, no fundo, no fundo, o país sempre arranjou uma maneira de olhar para a política como uma ópera buffa que a ninguém lembraria levar a sério e que nunca impediu que a economia funcionasse. Como alguém sugeria, com um gosto duvidoso, que diferença há afinal entre o rei do bunga bunga e o príncipe dos palhaços? Sempre foi assim, sempre funcionou assim, sempre funcionará assim. A política, por aquelas bandas, é uma balbúrdia. Eppur a economia si muove. Ou lá se vai movendo.

Mas olhemos para o fenómeno sob outro prisma. E já que estamos mergulhados em metáforas circenses, saltemos para a ópera Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo. À primeira vista é de uma comédia que se trata. Dir-se-ia que é também buffa a ópera que o palhaço Tonio anuncia no prólogo. Mas Pagliacci é um sofisticado jogo de sombras, uma matrioska infindável de sentimentos universais. E por trás das aventuras e desventuras de Colombina e do Pagliaccio, vive-se, mil vezes espelhado nesse mundo que é a representação dentro da representação, o drama proibido e "real" dos amores desencontrados de Nedda e Canio. Abreviemos. O drama é o drama universal do marido encornado e a obra termina como terminam tragicamente muitos desses dramas humanos: com uma vingança servida em alguidar de sangue.

Fast forward. O drama que se esconde por baixo da fina camada de comédia burlesca que é a política italiana é, também ele, universal. E o paradoxo que revela é quase tão antigo como o da dor incontida do encornado marido que só encontra na morte a forma de perpetuar o amor que desejaria prolongar em vida. O universalíssimo (porque está longe de ser só italiano) drama de Beppe Grillo é o drama da petite différence fundacional (mas tantas vezes esquecida) que separa os processos, as regras e portanto os resultados de dois sistemas: democracia e economia de mercado. Por muito que gostem de andar a par, por muito que pareça existir evidência de que o grande mercado dos votos favorece o funcionamento do grande mercado dos preços (e vice-versa), a verdade é que cada um dos sistemas responde a perguntas fundamentalmente diferentes. A democracia responde à necessidade de encontrar processos pacíficos para regular a mudança de poder. A economia de mercado responde à necessidade de encontrar processos pacíficos para regular a produção e a distribuição de riqueza.

Ora, convenhamos, quando se fazem perguntas diferentes a entidades diferentes, por processos diferentes, obtêm-se normalmente respostas diferentes. Qual é, qual pode ser o espanto? Se ninguém podia esperar que a tecnocracia europeia escolhesse Grillo, por que carga de água haveria o eleitorado de escolher Monti?

O que é perigoso e o que deve servir de lição no caso italiano é que, tal como o pagliaccio Canio, tal como qualquer ser humano desde a criação, ninguém gosta de se sentir encornado. Tanto mais que, já se sabe, as cabeças enfeitadas tendem a aquecer em demasia. Desta vez os eleitores italianos encontraram a vingança no regaço de um pagliaccio. Olhemos para a coisa pelo lado positivo: podia ter-lhes dado para um Duce.