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Notas de uma campanha alegre

Pedro Norton

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Felizmente, o País é muito diferente daquilo que se avista da janela do gabinete de Marco António Costa

1. A escolha dos candidatos autárquicos, sobretudo para as grandes cidades, é muitíssimo reveladora da forma como os aparelhos partidários olham a política. As escolhas do PSD, desse ponto de vista, foram particularmente eloquentes. Um comentador desportivo em Lisboa e um populista extravagante no Porto são bons exemplos de como a máquina laranja olha a cidade e o mundo. O índice de "mediatismo" de cada candidato é o alfa e o ómega de todas as escolhas, as considerações éticas são desavergonhadamente metidas na gaveta, a importância da construção de propostas políticas locais com um mínimo de densidade e de seriedade é-lhes absolutamente estranha. Mais relevante, na desfaçatez das escolhas, é indisfarçável a conceção verdadeiramente ofensiva de um eleitor tomado por mentecapto. Felizmente, o País é muito diferente daquilo que se avista da janela do gabinete de Marco António Costa.

2. Com esta mundivisão saloia e bacoca não pode espantar o aparecimento, generalizado por todo o País (com o Porto à cabeça), de candidaturas independentes. O que é verdadeiramente curioso, mas também relativamente redentor, é que muitas dessas candidaturas independentes não sejam simplesmente propostas populistas e antissistema (que o autismo militante das máquinas partidárias obviamente incentiva). Muito pelo contrário, elas são, em muitos distritos, o exemplo maior de uma política responsável, substantiva, orientada para os cidadãos e verdadeiramente ancorada em ideias e em projetos locais.

3. E por falar no primado do local, não deixa de ser extraordinário que sejam as lideranças partidárias nacionais a tentar subverter a lógica de umas eleições que - em tese - mais poderiam fazer pela saúde de uma democracia que dá, por todo o lado, evidentes sinais de desgaste. Apesar da oposição corajosa do meu amigo Henrique Raposo que resgatou a temática do cocó canídeo nas ruas de Lisboa, nestas eleições as lideranças políticas nacionais conseguiram afastar do debate público qualquer assunto de proximidade em detrimento desse grande tema de campanha que foi - pasme-se - a hipótese do segundo resgate ao Estado português. Acontece que ao monopolizar a agenda, ao subverter por completo a lógica do debate político, os partidos políticos sublinham e sinalizam, em vez de atenuar, os sintomas da grande doença democrática que acabará por sair-nos muito cara.

4. Last but not least, uma palavra para esse cintilante triunfo do formalismo obtuso decretado pela CNE. Um dos males da nossa (in)civilização é este primado da forma, este construtivismo intelectual, que tantas vezes se afirma à custa do sacrifício deliberado do bom senso (esse bem precioso e tão mal repartido). É hoje evidente que, com a interpretação literal de uma lei obsoleta e impossível de cumprir, se conseguiu precisamente o que se queria evitar: sufocar ainda mais o debate local e de proximidade que é, ou devia ser, uma das fontes de revitalização da democracia.

Que no fim de tanto disparate, a coisa ainda funcione, eis, meus amigos, o que verdadeiramente me espanta.