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E se?

Pedro Norton

E se muitos dos barões do PSD, começassem a sair da toca e a apoiar a líder?

E se Paulo Rangel, seguramente um dos melhores líderes parlamentares do PSD dos últimos tempos e o homem que primeiro falou da "claustrofobia democrática", se revelasse tão combativo na "rua" como tem sido na Assembleia da República? E se enfrentasse um apático Vital Moreira com a argúcia, a inteligência e o sentido de oportunidade com que tem debatido com José Sócrates no Parlamento? E se a escolha de Rangel fosse percebida como uma aposta pessoal de Manuela Ferreira Leite e se, mais relevante, como uma aposta ganha da líder social-democrata? E se a crise económica e social não desse sinais de abrandar? Se o desemprego continuasse a aumentar? Se a nossa depressão colectiva, atribuível ou não à acção do Executivo, se aprofundasse? Se o PSD conseguisse fazer das eleições europeias (que, sejamos francos, normalmente não entusiasmam qualquer alma) uma verdadeira primeira volta das legislativas? Se, à custa de uma certa perversão das regras do jogo, conseguisse que a campanha e o debate eleitorais se centrassem essencialmente nos problemas do país? E se, posto tudo isto, os eleitores resolvessem castigar o Governo com inequívoco "cartão amarelo" neste primeiro embate nas urnas?

E se as eleições autárquicas fossem marcadas para uma data anterior às eleições legislativas? E se António Costa, apesar de todas as suas qualidades, desse sinais inequívocos de que a batalha eleitoral por Lisboa não é exactamente a batalha da sua vida? Se não conseguisse esconder algum enfado com as funções que ocupa e com as chatices que lhe dá Lisboa? E se as obras na Praça do Comércio (que podem passar à história como um dos maiores hara-kiri eleitorais de que há memória na nossa história recente) não estivessem concluídas antes das eleições? E se, indiferente ao balanço que os portugueses fazem da sua passagem pelo Governo, Santana Lopes mandasse o super ego às urtigas e aparecesse com um vigor e uma determinação em tudo contrastantes ao estilo mais recatado de Costa? Se fizesse do túnel do Marquês a sua principal bandeira eleitoral? E se, em consequência de tudo isto, o PS tivesse uma segunda derrota política no espaço de poucos meses? Dramaticamente agravada por uma, até há poucos meses inimaginável, vitória do PSD em Lisboa?

E se a "maré" começasse então a mudar? E se a liderança de Manuela Ferreira Leite se reforçasse com estas performances eleitorais? Se começassem a descobrir-lhe qualidades? E se muitos dos barões do PSD, que por esta altura ainda se escondem à espera de melhores dias, começassem a sair da toca e a apoiar a líder na esperança de daí tirar algum dividendo num hipotético futuro Executivo? E se de entre estes aparecesse um outro dirigente que emprestasse ao PSD uma dimensão de futuro que hoje manifestamente não tem? Se a oposição interna se calasse? Se os media passassem a discutir a hipótese de ver Ferreira Leite a governar o País como uma hipótese menos remota do que a vitória do Benfica esta época? E se, entretanto, os eleitores se convencessem da impossibilidade de uma maioria absoluta do PS? E se se assustassem com a perspectiva de ver o Bloco de Esquerda chegar ao Governo? Ou com a hipótese verdadeiramente contranatura de ver Sócrates e Portas no mesmo Executivo? E se...

Serão demasiados ses? Ou será que em política não há impossíveis?