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E agora, algo completamente diferente

Pedro Norton

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São precisamente os sonhos que nunca são realizados que se revelam mais invencíveis

E agora - porque estou, se querem saber a verdade, sem ponta de pachorra para a política caseira e menos ainda para as guerras pueris no PS - permitam-me que divague por algo completamente diferente:

"Estão (...) definidas as duas grandes correntes fundamentais e eternas de toda a política universal: a política prática e a idealista, a diplomática e a ética, a política de Estado e a da Humanidade. Para Erasmo que vê o universo como filósofo e que partilha a visão de Aristóteles, de Platão, e de São Tomás de Aquino, a política só pode ser moral: o Príncipe, o Chefe de Estado tem de ser, antes de mais, o servidor do divino, o expoente das ideias morais. Aos olhos de Maquiavel, diplomata de ofício, para quem a vida das chancelarias não tem segredos, a política é uma ciência amoral e independente que tem tão pouca relação com a ética como com a astronomia ou a geometria.

(...) Bem entendido, a conceção de Maquiavel que glorifica o princípio da força soube impor-se na história. Não foi a política humanista, flexível, conciliadora, não foi o Erasmismo mas a política da violência fiel ao espírito do Príncipe que determinou o curso dramático da história europeia. (...) Foi o espírito da discórdia e não o da concórdia que forneceu aos povos as energias mais apaixonadas. O pensamento de Erasmo não jogou qualquer papel na história nem exerceu qualquer influência sensível no destino da Europa: o grande sonho dos humanistas (...) permaneceu uma utopia nunca realizada e talvez nunca realizável no domínio dos factos."

Quem traça este quadro cruelmente realista e deprimente da história europeia, traduzido às três pancadas por moi-même, é o meu amigo e mestre Stefan Zweig, na sua notável biografia sobre Erasmo de Roterdão. E fá-lo - é sintomático - em 1935. Em plena crise económica. Em pleno advento dos totalitarismos na Europa. A meio caminho entre uma guerra que dilacerou a velha Europa e destruiu o seu Mundo de Ontem (em que ninguém acreditava em guerras, em revoluções e subversões) e um dos conflitos mais desumanizados e mais desumanizadores que a história haveria de conhecer. Num tempo simultaneamente tão longe e tão perto do nosso Mundo de Hoje. Num tempo em que a esperança parecia para sempre arredada do léxico dos europeus.

Mas Zweig, suicida que ainda há de ser, não é, paradoxalmente, homem para abandoná-la completamente. E, coisa verdadeiramente extraordinária, no meio da escuridão, parece conseguir antever o breve triunfo do ideal humanista que haveria de ser a União.

"No domínio do espírito há lugar para todas as oposições: mesmo aquilo que nunca triunfa na realidade, conserva aí um dinamismo eficaz e são precisamente os sonhos que nunca são realizados que se revelam mais invencíveis. (...) Só os ideais nunca realizados, e que assim permaneceram puros, continuam a fornecer a cada geração um elemento de progresso moral, só esses ideais são eternos."

Perdoem-me, uma vez mais, esta deriva escapista que me assaltou o espírito. E a preguiça que mal consegue esconder-se atrás de tão longas citações. Mas hão de convir que em tempos sombrios como estes em que voltámos a viver, Zweig e Erasmo, europeístas esperançosos, conseguem ser muito mais fascinantes do que as querelas do Largo do Rato.