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Dicionário de bolso

Pedro Norton

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O interesse estratégico é um conceito abstrato que convém não definir com grande precisão

Para benefício dos leitores da VISÃO, deixo aqui um breve mas imprescindível léxico para quem quer perceber alguma coisa da trapalhada em que se transformou o caso PT/Telefónica.

Ativo Estratégico. A estratégia, já se sabia, tem costas largas. Serve normalmente de argumento final que dispensa justificação ou recurso. Para além do mais, confere sempre um ar sisudo e inteligente a quem por ela clama. E é, quer sob a forma de substantivo quer sob a forma de adjetivo, uma palavra muito jeitosa (no sentido em que dá um jeitão) para ter à mão. No caso em apreço aprendemos, por exemplo, que o interesse estratégico é um conceito abstrato que convém não definir com grande precisão e que se invoca quando se esgotou qualquer racional económico para justificar um investimento ou recusar um desinvestimento. Na mesma linha, aprendemos, um ativo passa a ser estratégico quando já não há mais maneiras, à luz da ciência conhecida, de justificar o seu valor. Dada a natureza altamente volúvel e misteriosa desta definição, ficamos finalmente a saber, o que hoje é estratégico amanhã pode não ser.

Núcleo Duro. É a designação dada a um saco de gatos vestidos de gravata, com interesses divergentes e normalmente conflituantes que, durante um período curto de tempo, se portam civilizadamente uns com os outros. A sua principal característica é, paradoxalmente, não ser tão duro como isso. É assim um bocadinho como o núcleo de um átomo. Sabe-se que é possível dividi-lo (normalmente através do bombardeamento com vil metal) mas ninguém consegue controlar com precisão o que acontece depois da fissão. Muito menos garantir que a fissão nuclear não dá origem a uma reação em cadeia. E isto para não falar da trapalhada que é ter de enterrar o lixo nuclear, que é como quem diz, a parte do núcleo duro que, deixando de ter utilidade depois da fissão, continua a maçar muita gente durante muito tempo.

Centros de Decisão Nacional. São outra abstração indefinível. Ninguém sabe exatamente o que são, não há provas que alguém tenha visto algum, mas enchem a malta de fervores patrióticos e também dão um jeitão quando se trata de pôr o Estado a defender posições indefensáveis. Tal como os ativos estratégicos, são de natureza instável e volúvel. Aparecem e desaparecem misteriosa e muito rapidamente do discurso empresarial e político. Há quem lhes chame os gambozinos da alta finança. Toda a gente sabe que não existem mas mantém muita gente entretida.

Golden Share (por vezes também conhecida por Golden Chair). É a porta dos fundos por onde a política entra nos bailes masqués dos negócios. Ou se preferirem uma alegoria mais carnal, são aquelas portas em trompe l'oeil que os reizinhos de todo o tipo e de todo o mundo costumam usar para visitar as suas voluptuosas amantes em noites de maior aperto. Em certo sentido são o oposto dos Centros de Decisão Nacional. Toda a gente sabe que existem, toda a gente sabe exatamente para que servem, toda a gente já viu, inclusive, o poder político a usá-las com desbragada volúpia e duvidoso decoro, mas todos fingem acreditar que por ali não passa nada.