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Da varanda da minha cidade

Pedro Norton

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Nada será como dantes. O País inteiro assistiu ao embuste grotesco. O que aí vem não pode ser coisa boa

Claro que podemos gastar os neurónios a fazer análise politica da mais fina. Da mais inteligente. Podemos calcular, com requintes de sofisticação ou de malvadez, o deve e o haver de todos os atores da farsa que parou o País nas últimas semanas. Podemos proclamar que o Presidente "perdeu margem de manobra", que Passos "saiu reforçado", que Portas "está desacreditado" ou que Seguro "está a prazo na liderança do PS" porque não soube aproveitar a oportunidade para se afirmar como um chefe incontestado. Poder, podemos. Mas isso não passa de metapolítica. É verdade que estamos tão viciados neste tipo de deleite intelectual que nem nos damos conta de que a respiramos numa sofreguidão cega. É verdade que à força de querer parecer tão inteligentes fomos esquecendo a cidade, fomos perdendo de vista a polis. A metapolítica dos ganhos e perdas, dos comentários e das análises, não passa de uma reflexão umbiguista, desligada de qualquer consideração ética ou propriamente política, que dispensa a substância para se fixar na fugidia arte da forma.

Talvez valesse a pena, por isso mesmo, deixar a caverna por instantes e voltar a olhar a cidade. E o que é que se vê, pousada a primeira poeira desta tragédia, quando deixamos o mundo palaciano das sombras chinesas, das redações e das sedes partidárias? Deixem para trás a contabilidade das perdas e dos ganhos que nos querem fazer confundir com o alfa e o ómega da arte da política. Deixem para trás o cinismo ácido que muitos equiparam a medida única da inteligência analítica. Centrem-se na cidade, pensem, por uma vez, na polis e digam-me o que veem. Seria assim tão absurdo o pacto de salvação proposto pelo Presidente? Será assim tão estranho que aos partidos que nos governam há 30 anos ousemos pedir responsabilidade e bom senso? Será assim tão esdrúxulo que, uma vez sem exemplo, lhes peçamos para fazer do País onde viverão os nossos filhos o centro das suas preocupações e anseios?

Centrem-se numa observação lúcida da cidade e convirão que não é bonito o que se vê da varanda. Partidos que perderam o contacto com a realidade. Que não souberam perceber o anseio, genuíno, profundo, angustiado, de um País causticado que quer salvar-se do abismo. Que não conseguem ver mais longe do que o horizonte das suas vaidades. Que não conhecem um tempo que não seja o hoje e agora. Partidos entretidos numa valsa macabra, num mundo que é só deles, e que nunca, nem por um curtíssimo instante, consideraram seriamente a hipótese de bailar na direção de um apelo que, no fundo, era tão só um apelo ao bom senso.

Se para mais não serviu, a proposta do Presidente serviu para isto. Caíram as máscaras, foram-se as sombras. E nada será como dantes. O País inteiro assistiu ao embuste grotesco. O que aí vem não pode ser coisa boa. Uma curta viagem pela antecâmara das tragédias do século XX chega para perceber que não há nada de bom que possa sobrevir a um sistema partidário que perdeu o respeito do País. Repito: o que aí vem não pode ser coisa boa.