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Da limpeza e da exaltação

Pedro Norton

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O dr. Mário Soares prestou recentemente um péssimo serviço ao país. Digo-o com alguma tristeza. Mas digo-o porque me parece leviano que alguém com a sua responsabilidade venha decretar a ilegitimidade do governo

Diz-me quem conhece a situação muito melhor do que eu que Moçambique atravessa um momento político particularmente sensível. Com eleições no horizonte, com um processo de sucessão em curso no partido do poder, com a oposição acantonada fora da capital e com inúmeros interesses internacionais entretidos numa "dança macabra" em torno das riquezas naturais do país, é o futuro daquela nação africana que está em jogo. E foi precisamente nesse quadro e com essa preocupação a pairar no ar que ouvi, na semana passada, um reputado jornalista moçambicano, a fazer uma assisada apologia da moderação ou, na sua expressão particularmente feliz, da "limpeza" na linguagem pública e publicada.  O momento não estaria, mesmo para os opositores ao poder, para declarações inflamadas, insultos gratuitos, muito menos para incitações à revolta. Confesso-vos que, no calor suave daquela tarde de Maputo, fiquei a pensar, cá com os meus botões, que o conselho poderia estender-se aos vários atores da vida política nacional. De políticos a comentadores, de governantes a jornalistas, num contexto que não é seguramente menos complicado, se é que não o é muito mais.

Não se trata, bem entendido, de fazer a defesa da autocensura, muito menos a apologia de uma qualquer disposição acrítica que seria obviamente doentia e contrária aos fundamentos de uma sociedade aberta. Portugal precisa de um debate público vibrante e sério. E o governo precisa seguramente de ser desafiado na sua ortodoxia financeira. Trata-se, isso sim, de reconhecer que é alarmante o nível de conflitualidade latente na sociedade portuguesa. Trata-se de reconhecer que há um desespero larvar e uma raiva muda que vão crescendo num ensurdecedor silêncio que só não assusta loucos e inconscientes. Trata-se, tão só, de ter o bom senso de não lançar, gratuitamente, gasolina para uma fogueira que ameaça - seguramente que por culpa de algum dogmatismo do executivo - tornar-se um incontrolável incêndio.

E é porque me parece que, pelas razões expostas, precisamos, tanto ou provavelmente muito mais do que os moçambicanos, de cultivar uma certa "limpeza" na linguagem que entendo que o dr. Mário Soares prestou recentemente um péssimo serviço ao país. Digo-o com alguma tristeza. Mas digo-o porque me parece leviano que alguém com a sua responsabilidade venha decretar a ilegitimidade do governo. Mais grave, digo-o porque me parece insensato e incendiário sugerir que o Presidente da República possa ser cúmplice de uma escalada de violência se o não demitisse. São ideias, que sendo absurdas do ponto de vista formal, constituem sobretudo uma via verde para a ingovernabilidade e podem até ser entendidas como uma legitimação da mesmíssima violência que seguramente querem evitar. 

Ao contrário de uma certa direita que nunca verdadeiramente o "engoliu", sou dos que pensam que Portugal deve muito ao dr. Mário Soares. Sou dos que respeitam a coragem e o desassombro das suas opiniões. Sou até dos que apreciam o seu incurável otimismo e a dimensão quase lúdica que sempre emprestou e continua a emprestar à sua intervenção política. Boa parte destas suas qualidades explicam, aliás, a notável capacidade de mobilização de que deu provas ao reunir todas as esquerdas numa frente comum contra a política do executivo. Frente essa a que, pasme-se, nem sequer faltou o "camarada Pacheco". Chapeau.

Mas é precisamente porque lhe reconheço tantas qualidades que  lhe atribuo especiais responsabilidades. E é porque reconheço o seu peso ímpar na sociedade portuguesa que sou dos que esperariam que tivesse a sageza de perceber, também ele, que há horas únicas que reclamam mais "limpeza" do que exaltação.