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Brandos costumes

Pedro Norton

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Sei de um país que, uma vez mais, vive tempos perigosos. Onde o desencanto é geral, a desesperança absoluta, o futuro, dir-se-ia, é coisa do passado

Sei de um país onde, há pouco mais de cem anos, numa "tarde linda, azul, morna diáfana", um "homem de barba preta", professor do 1.º grau de instrução primária, e "um homem do estribo", antigo empregado de comércio, assassinaram, a sangue frio, o chefe de um Estado em muito mau estado.

Sei de um país onde os revolucionários são assassinados por doentes tresloucados, antes ainda de fazerem a revolução. Sei de um país onde os revolucionários se suicidam, antes ainda de terminarem a revolução.

Sei de um país que fez da República Velha uma revolução contínua. "Atos revolucionários, sediciosos, pronunciamentos, golpismos, intentonas, inventonas, efetivas ou potenciais." Sei de um país cuja I República fornece "exemplos para quase todos os tipos de golpismos insertos nos manuais, desde os que ocorrem sem efusão de sangue, aos que atingem o nível do morticínio".

Sei de um país em que um major se fez Presidente-Rei por meio uma revolução sangrenta que deixou no chão uma centena de mortos e mais de 500 feridos. Sei de um país onde Sidónio, "Presidente da República, pela vontade do Destino e o direito da Força", se aguentou um único ano "à tona do caos português". Sei de um país que, por esta altura, assassinava um Chefe de Estado a cada dez anos.

Sei de um país em que 14 governos no espaço de três anos acabariam por desembocar, numa noite sangrenta de outubro, nos assassínios do Presidente do Governo e do próprio fundador da República.

Sei de um país que dispensou a democracia a 28 de Maio e que, "em junho, foi alegremente aplaudir Gomes da Costa à sua, muito sua, avenida da Liberdade".

Sei de um país que, logo depois, fez o Reviralho e montou a guerra civil em pleno coração do Porto. Sei de um país que, em escassos quatro dias, espalhou centenas de mortos e milhares de feridos  entre a Praça da Batalha e a Serra do Pilar. Sei de um país aos tiros, no Castelo, na Madeira, nos Açores, na Guiné e que só em Lisboa, num fatídico dia de 1931, da Rotunda às Avenidas Novas, das Amoreiras às Laranjeiras, junta mais quatro dezenas de mortos à estatísticas do morticínio.

Sei de uma ditadura feita de PVDE, de PIDE, de DGS, de repressão violenta, de torturas e de assassínios políticos. Sei de um campo de concentração eufemísticamente apodado de colónia penal onde terão morrido, "de morte lenta" várias dezenas de opositores do regime.

Sei de um país que fez uma guerra em África de que ainda não terá contado, com rigor, todos os mortos. Provavelmente menos ainda os feridos, os estropiados, todos quantos não mais deixaram de ter perturbações psíquicas. Sei de um país que só em Wiryamu terá deixado mais de 400 civis mortos, entre os quais muitas mulheres e crianças.

Sei de um país com revolucionários que sonharam encostar à parede ou mandar para o Campo Pequeno "umas centenas ou uns milhares de contrarrevolucionários, eliminando-os à nascença". Sei de um país em que heróis da revolução se fizeram terroristas com provas dadas.

Sei de um país que, contra todas as evidências históricas, continua a julgar-se de "brandos costumes". Sei de um país que, uma vez mais, vive tempos perigosos. Onde o desencanto é geral, a desesperança absoluta, o futuro, dir-se-ia, é coisa do passado. São tempos que deviam convocar-nos, humildemente, a aprender com o passado. E a primeira lição talvez devesse ser a de reconhecer que não há, na mitologia portuguesa, mentira mais perigosa do que a fábula dos "brandos costumes".