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Angústias de 'kota'

Pedro Norton

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Aquilo a que estamos a assistir é, de certa forma, à abolição do próprio conceito do privado no mundo em rede em que vivemos

Lembram-se de Winston Smith? Lembram-se do pobre funcionário público que leva uma vida austera, regada a Gin Vitória, apertado num T1 sobre os escombros de uma Londres arruinada? Lembram-se do zeloso empregado do Ministério da Verdade (Minivero em novilíngua) que fazia do revisionismo histórico o seu ganha pão, a sua arte e a sua forma de vida? Lembram-se do cidadão oprimido, esmagado, politicamente diminuído e permanentemente humilhado pela vigilância permanente do telecrã? Pois, por mais extraordinário que pareça, neste verdadeiro século de todas as luzes, dir-se-ia que tropeço em Winston Smiths por todo o lado. São de todas as idades, géneros e categorias sociais. São adolescentes imberbes, "famosos" (essa novel categoria socioprofissional que é simultaneamente adjetivo e substantivo), governantes sisudos, estudantes revoltados, balzaquianas voluptuosas, profissionais do engate, entusiastas da bisbilhotice, agitadores sem causa  e mais um sem número de aves raras (entre as quais, e para que conste, moi même). Mas, ao contrario do orwelliano Smith, a generalidade destes novos cidadãos da Oceânia não procuram um lugar esconso dos seus T1, um reduto minúsculo fora do ângulo de visão do telecrã, para escrever afanosamente os seus diários. Paradoxalmente, é no próprio telecrã que registam angústias, terrores, piadolas tontas, explosões de fúria, pensamentos zen, desencontros e reencontros de amor. É no telecrã que expõem, com uma candura que faria corar os dedicados espiões do Minivero, cada detalhe da sua vida, cada passo da sua existência, cada insignificância da sua biografia. É no telecrã que despejam fotografias de casamentos e de batizados, de filhos, de namorados e de amigos, com ou contra a vontade de uns e de outros. E isto para não falar desse clássico do género que é o clip porno realizado com ou sem a anuência da ex-namorada ou do noivo entretanto desavindo.

Dir-me-ão que é um problema de cada um. Ou, num registo mais prosaico, que cada qual faz a cama em que se deita. E não sou eu que vou desmenti-lo. O fenómeno, mais ou menos ridículo, mais ou menos grotesco, é do domínio da liberdade individual e não me passa pela cabeça sugerir limitações nesta matéria.

Mas dito isto, nada me obriga a embarcar na dominante glorificação acrítica das redes sociais. Nada me impede de tentar pensar mais longe e de refletir sobre as dimensões e consequências sociológicas mais amplas do dito fenómeno. Tanto mais que aquilo de que estamos a falar é, afinal, só e mais nada, de uma mudança muito profunda, porventura radical, do conceito de privacidade na nossa sociedade. Vou mesmo mais longe: aquilo a que estamos a assistir é, de certa forma, à abolição do próprio conceito do privado no mundo em rede em que vivemos. E isso, do meu ponto de vista, justifica um conjunto de perplexidades muito sérias. A começar, na linha do que faz Mário Vargas Llosa no seu magnifico A Civilização do Espetáculo, pela questão de avaliar os efeitos sobre a cultura e a civilização ocidentais, da sagração do frívolo e da bisbilhotice. E a acabar na questão, porventura politicamente mais dramática, de saber se pode existir verdadeira liberdade sem o culto social de uma efetiva privacidade.

Desconfio que os meus filhos me dirão que tudo isto são angústias de "cota". Se o fizerem, talvez lhe sugira que procurem na wikipédia o significado de "kota", em quimbundo. Nem tudo, concedo, são defeitos.