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Ainda é tempo de milagres?

Pedro Norton

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Os tempos vão continuar muito duros e o Governo tem de ter uma obsessão com a ética

Não sou o único a dizê-lo, nem sequer sou o primeiro. Para início de crónica, estamos bem, portanto. Sou dos que pensam que o chumbo do TC e a microrremodelação do Executivo podem constituir uma segunda oportunidade para o Governo. Mas para isso, vários astros precisam de estar alinhados.

O primeiro, tenho insistido bastante na ideia, é dar lastro político ao Executivo. Não é só coordenação, muito menos é só comunicação. É lastro. É pensamento estruturado. É uma visão para o futuro do País e para o futuro do País na Europa e no Mundo que seja mais mobilizadora do que um número para o défice. Deste ponto de vista, a coisa não começa mal. A entrada de Miguel Poiares Maduro para ministro Adjunto é um excelente sinal. Estou seguro de que acrescentará mais, nos próximos meses, do que Miguel Relvas poderia fazer até final da legislatura.

Mas não basta. Os tempos vão continuar muito, muito duros e o Governo tem de ter - defendi-o desde o principio - uma obsessão com a ética. Não se trata de encenar gestos vazios de substância, eventualmente bem intencionados mas geradores de ondas de populismo, como sejam pôr o primeiro-ministro a viajar em classe turística. Trata-se, por exemplo, de cortar cerce com a arreigada tradição de ter, dentro dos próprios governos, sejam eles PSD ou PS, "antenas" bem colocadas para as negociatas do Estado com a clique de advogados e empresários cuja profissão principal é enxamear os corredores do poder. Esta incompreensão profunda de que tempos excecionais pedem práticas inatacáveis e governantes acima de toda a suspeita terá sido, aliás, um dos maiores pecados do Governo PSD/CDS. Mas, mais uma vez, a minirremodelação, tanto pelo que deita fora, como pelo que incorpora, é um sinal animador. Não tenham dúvidas. Quebraram-se muitas redes e muitas ligações diretas. O tempo dirá se pode impedir-se que se reconstituam.

É necessária, ainda, uma clara viragem na política económica. Mas talvez não no sentido em que defende alguma esquerda. Ao contrário do que se tem dado por adquirido, e do que dá jeito proclamar, este governo tem tido muito pouco de liberal.  Aliás, o "brutal aumento de impostos" com que o País foi brindado o ano passado, aproxima-nos muito mais de uma disfuncional social-democracia escandinava do que de um suposto paraíso liberal. A agenda de diminuição do peso do Estado - essa, sim, uma ideia liberal - vem com dois anos de atraso, com um governo fragilizado, e com uma economia inutilmente posta de rastos. Mas é, inegavelmente, uma agenda estruturante e alicerçada numa visão política tão clara quanto marcada. Tenho é dúvidas de que existam ainda condições práticas para a levar avante e isso leva-nos ao meu último ponto.

É que falta, também, um suave milagre para de que desta embrulhada saia uma qualquer oportunidade. É impossível levar a cabo um programa de reforma do Estado que não seja excessivamente recessivo e socialmente insustentável sem o apoio do PS. E o milagre é saber, por um lado, onde é que Passos encontrará a humildade de perceber que cortou demasiadas pontes com os socialistas, e, por outro, como vai Seguro resistir à tentação imediatista de continuar a surfar uma onda que, está escrito, acabará por afogá-lo.

É pedir muito? É. Mas se os milagres fossem fáceis de executar não seriam milagres.