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A 'troika' explicada às criancinhas

Pedro Norton

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Tenho medo de viver num Portugal com uma comunicação social asfixiada

Ainda sou filho do imperialismo americano e do internacionalismo soviético. O terror da minha meninice, para além do Marco e do Calimero (terríveis bombas de neutrões neuróticas que traumatizaram gerações inteiras), era o apocalipse atómico. E uma das nossas fantasias distópicas de miúdos era o mundo pós-nuclear. Um vasto deserto fumegante e radioativo, onde meia dúzia de sobreviventes deformados por mutações horrendas lutava pela posse de água salobra.

Mesmo que o mundo não acabe até à meia-noite de hoje (escrevo a 21), não me parece que os meus filhos percam o sono a imaginar mundos pós-nucleares. A distopia portuguesa do século XXI arrisca-se a ser, mais prosaicamente, o mundo pós-troika. Por essas e por outras é que já me fui prevenindo. Se lá em casa os rapazes me pedirem para partilhar os meus terrores nessa matéria - o que não é, devo confessá-lo, muito provável -, já alinhavei duas ou três ideias para servir com moderação (dizem-me que, ao contrário do que proclama a vulgata pós-moderna, Andersen e os irmãos Grimm não nasceram por acaso e que as histórias de terror têm um papel formativo na vida das crianças).

Dir-lhes-ei que tenho medo de viver num Portugal em que, ao contrário do que cantava a utopia troikista, a economia esteja mais concentrada do que nunca. Tenho medo que nasça, dos escombros de tanta "destruição virtuosa", uma floresta assombrada de oligopólios na grande distribuição, nas comunicações, na energia, na banca e em todos os demais setores relevantes cá da paróquia.

Dir-lhes-ei que tenho medo de viver num Portugal transformado num protetorado seja de quem for. E se me pedirem para elaborar melhor, vou fazer por ser claro. Tanto se me dá que seja Angola, o Brasil, a Dinamarca ou o Tuvalu. Não gosto, nunca gostei, é de ver poder de mais entregue a gente de menos. Tanto mais que acredito que não são só os capitais que se importam. Normalmente ao carcanhol vêm atrelados métodos de gestão, filosofias políticas, quadros mentais, mundivisões. E se me perguntarem de onde vem esse meu fantasma, explico-lhes que sempre tive medo das ditaduras das finanças e que não vejo uma pinga de reflexão estratégica no programa de privatizações português. Dir-lhes-ei que tenho medo de viver num Portugal populista e miserabilista em que se demonizam as elites, o mérito e o sucesso. Dir-lhes-ei que tenho medo de viver num Portugal desiludido que se lançou num doloroso programa de transformação, recheado de intenções virtuosas, mas que escondia, afinal, um simples programa de transferência de poderes. Dir-lhes-ei que tenho medo de viver num Portugal que faz das fronteiras geracionais o alfa e o ómega de todas as políticas. Num Portugal inebriado pela apologia do novo e da juventude que despreze o papel da sabedoria e da experiência. E para rematar, dir-lhes-ei ainda que tenho medo de um Portugal com uma comunicação social asfixiada que tenha esquecido que a democracia tem de ser regada todos os dias.

E se ficarem muito assustados, dou-lhes um beijo na testa e digo-lhes que tudo isto são só histórias de terror. Que servem para o que sempre serviram. Para dar nomes aos medos e para ensinar a separar o trigo do joio. O drama não é atravessar uma floresta assombrada. O drama é não distinguir o lobo mau do capuchinho vermelho.