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A retórica da violência

Pedro Norton

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Por muito irritante que seja dizê-lo, a verdade é que o pai do liberalismo pairou, inominado e incógnito, sobre o conclave das esquerdas

Pedro Norton

Já aqui contei este episódio mas julgo que vale a pena regressar a ele. Uma das últimas vezes que estive em Moçambique, há cerca de seis meses, pressentindo-se já um surdo apodrecimento da situação política e um crescendo de tensão social, ouvi um experimentado e muito conceituado jornalista fazer uma apaixonada apologia da "limpeza da linguagem".  Tratava-se, no fundo, de um apelo ao bom senso e à moderação. Numa situação tão delicada como a que já então se percebia, os excessos de linguagem tinham potencial para funcionar como rastilhos de um confronto armado que se adivinhava mas que ninguém de bem desejava. O apelo, já se vê, terá caído em saco roto. O resto da história está infelizmente agora à vista de todos.

Voltei a lembrar-me deste apelo de luminoso bom senso ao ouvir as declarações incendiárias de Mário Soares e de Helena Roseta, na conferência Em Defesa da Constituição. É verdade que não deixa de ser irónico (e noutras circunstâncias seria até divertido) ver tanta cabeça de esquerda empenhada em fazer um aggiornamento da teoria de John Locke sobre o direito à rebelião. Por muito irritante que seja dizê-lo, a verdade é que o pai do liberalismo pairou, inominado e incógnito, sobre o conclave das esquerdas. Mas adiante, porque o que interessa sublinhar é, não tanto a ironia doutrinária, mas a profunda irresponsabilidade da coisa.

Porque a verdade é que as palavras têm consequências. Mário Soares, que genuinamente respeito e admiro, tem especial obrigação de sabê-lo.  Embora preferisse um estilo menos desabrido e mais respeitador das instituições da República, não está em causa o direito a uma apreciação crítica e até contundente do Presidente e do Governo. Não está em causa o direito à indignação com o sofrimento de muitos portugueses atropelados pelo programa de ajustamento económico. Não é a substância da crítica que me preocupa. É a sua forma exaltada. É muito simplesmente de "limpeza de linguagem" que se trata. A retórica da violência alimenta a violência. E ao sugerir que Presidente e primeiro-ministro vão "para casa sossegadinhos enquanto ainda há paz", Mário Soares tem obrigação de perceber que, sobretudo na sua condição de figura maior do regime democrático, legitima o excesso, a irresponsabilidade e, em última análise, a própria violência. Também ao teorizar sobre a legitimidade da violência para pôr cobro à violência da limitação de direitos fundamentais, Helena Roseta tem obrigação de saber que, ela própria, voluntariamente ou não, alimenta a exaltação gratuita. Mais grave, também ela, seguramente sem intenção de fazê-lo, acaba por parecer caucionar a rebelião violenta.

Felizmente, há que reconhecê-lo, na volta do correio, Presidente e primeiro-ministro optaram por respostas brandas, comedidas e com elevado sentido de Estado. Goste-se ou não dos personagens, a verdade é que ambos praticaram a tal "limpeza de linguagem" de que o País tanto precisa, numa altura tão sensível como a que atravessamos. Espero sinceramente que estas palavras de bom senso possam, elas próprias, ter também consequências.