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A ocasião faz o ladrão

Pedro Norton

Tal como existe um PS arrogante, sem cultura democrática e com tentações controleiras, também existe um PSD com exactamente os mesmos tiques

1 - É bem verdade que tudo parece incrivelmente estúpido. E que são legítimas todas as leituras. Das mais simples às baseadas nas mais rebuscadas teorias da conspiração. Acontece que, para o bem e para o mal, em política, o que parece é. E, mais do que ninguém, José Sócrates tinha a obrigação de sabê-lo quando, há poucos meses, elegeu a TVI e o jornal Público como "alvos a abater". Com o ineditismo desse gesto, foi ele próprio quem voluntariamente decidiu colar o seu destino à sorte daqueles órgãos de comunicação social. A partir do momento em que o fez, sabia que, nesta frente, se punha a jeito para ser preso por ter cão ou por não ter. Tal como a esmagadora generalidade dos cidadãos, eu sou dos que não fazem a mínima ideia se há cão ou se há gato nesta história. Mas que Sócrates se deixou enrolar nela até ao pescoço, disso não me restam grandes dúvidas. Em política, repito, o que parece é. E toda a gente percebe o que isto parece.

2 - Por mais dramáticas que sejam as consequências eleitorais desta picaresca novela, tudo isto, um dia, será história. Prefiro empregar a paciência dos leitores da VISÃO tentando reflectir sobre um fenómeno que, infelizmente, tem mais de estrutural do que de conjuntural. O PSD tem falado, e do meu ponto de vista com total propriedade, da asfixia democrática em que o país está mergulhado. Mas não nos iludamos. Tal como existe um PS arrogante, sem cultura democrática e com tentações controleiras próprias do terceiro mundo, também existe um PSD com exactamente os mesmos tiques. É bem verdade que num e noutro partido existirão igualmente militantes e dirigentes para quem "não vale tudo" no grande jogo do poder. Mas uma democracia adulta, um Estado Liberal digno desse nome, não pode depender de homens ou de mulheres providenciais. Que têm na sua boa-fé o único obstáculo ao poder absoluto. É vital compreender que é a ocasião que faz o ladrão. E que é da ocasião que temos de tratar.

Repito que desconheço os contornos que não são públicos deste caso em concreto. Mas não tenho grandes dúvidas de que, independentemente dos partidos que nos governam e dos protagonistas que os dirigem, temos vindo a criar, com particular ênfase nos últimos anos, um perigoso caldo que é tudo menos dissuasor deste tipo de tentações. Esse caldo chama-se promiscuidade entre interesses económicos e interesses políticos. Esse caldo faz-se de uma submissão crescente dos agentes económicos aos agentes políticos. Esse caldo faz-se do sector empresarial do Estado, de injustificáveis golden shares, de uma fiscalidade e de uma burocracia asfixiantes mas faz-se também (é justo reconhecê-lo) de uma cultura de subserviência dos empresários portugueses a que vão escapando cada vez menos "quixotes". Esse caldo, não é politicamente correcto dizê-lo em tempos de crise financeira global, chama-se Estado.

Alguém disse um dia que "se quiseres conhecer o carácter de alguém, dá-lhe poder". Tenho todavia para mim que um país é um bem precioso de mais para servir de laboratório.