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A obsessão com a ética

Pedro Norton

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Sugiro que o executivo faça da obsessão com a ética, muito mais do que da obsessão com o défice, a verdadeira bússola da governação

É José Gil que, refletindo sobre o "Portugal, Hoje", sugere a existência de "uma sociedade civil cuja segurança resulta do próprio mecanismo de engendramento do laço social: a violência em parte transformada em medo, o medo da violência em parte metabolizado em brandura, doçura, amenidade. O que não implica civismo, mas uma inversão da violência e agressividades primeiras (...) sem que isso signifique a interiorização de uma lei. (...) Teríamos, assim, uma sociedade civil não violenta à superfície mas com um medo disseminado protegendo os indivíduos contra uma violência subjacente só parcialmente sublimada e investida em outros objetos". Ainda segundo José Gil, "isto explicaria vários aspetos da vida portuguesa", entre eles "o mito dos brandos costumes que reina à superfície escondendo uma violência real subterrânea".

Isso explicaria, acrescento eu, que, em várias situações limite, ao longo da nossa história recente - nas guerras liberais, na República, no reviralho, na guerra colonial, nos calabouços do Estado Novo - a fragilidade desses mecanismos de sublimação da violência se exponha com tanta crueza, o mito dos brandos costumes se esfume com tanta facilidade, a "violência e a agressividade primeiras" reemerjam com tanta crueza.

E é porque tenho esta noção da fragilidade imensa dos nossos brandos costumes que me preocupo sempre que nos vejo, coletivamente, a testar os nossos próprios limites. Portugal, não vale a pena repeti-lo, está a passar por um violentíssimo teste. A imposição (porventura demasiado ortodoxa) de curtíssimos prazos para a desalavancagem de Estado, empresas e famílias obriga a um esforço de ajustamento que, em si mesmo, pode, desde logo, revelar-se fatal. A imposição (essa, sim, imprescindível) de medidas estruturais com vista a relançar, a prazo, a competitividade da economia portuguesa, pressupõe uma pequena revolução na estrutura social e nas relações de poder, no nosso país. Ora, paradoxalmente, não é tanto este esforço colossal que me preocupa. Entre nós existe, e as sondagens mais recentes parecem prová-lo, uma consciencialização coletiva da necessidade e do nexo último deste esforço. Consciencialização essa a que, sejamos justos, não são alheios o bom senso e até a candura de que o primeiro-ministro tem dado provas nestes primeiros meses de governação.

O que verdadeiramente me preocupa é a multiplicação de casos laterais, na esfera do Estado, da responsabilidade direta ou não do Executivo, que se constituam em outras tantas inconsistências nessa narrativa de transformação, e acabem por retirar-lhe, no nosso sentir coletivo, o tal nexo último. Tanto mais que esse nexo último é, do meu ponto de vista, o único tampão capaz de impedir que a violência fragilmente sublimada da nossa sociedade se transforme em agressividade descontrolada e em violência real.

É por isso que me preocupo com os desvarios obscenos de tão provocatórios de Alberto João Jardim. É por isso que me preocupo quando a máquina da justiça persiste em dar de si mesma uma imagem de absoluto desnorte e a ideia de uma impunidade generalizada "de um certo país". É por isso que me preocupo de cada vez que, a propósito de uma medida anunciada ou de uma política por anunciar, continuo a ver sugeridas - ou claramente enunciadas - ligações perigosas entre poderes político e económico, para não falar de outros, de natureza mais subterrânea. É por isso, é por tudo isso, que, nos tempos perigosos que aí vêm, me atrevo a sugerir que o Executivo faça da obsessão com a ética, muito mais do que da obsessão com o défice, a verdadeira bússola da sua governação.