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A felicidade é um lugar estranho

Pedro Norton

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Manifestamente, Passos Coelho não leu Maquiavel. Se tivesse lido saberia que o mal faz-se todo de uma vez

1. A felicidade é um lugar estranho. A felicidade é um lugar ao norte, perto da Dinamarca, da Noruega e da Suíça. Um lugar que não quer nada com países em guerra nem com ditadores opressivos. A felicidade é um lugar estranho. Ao que agora juram os técnicos da ONU, a felicidade move-se assim como um icebergue e é hoje um lugar mais longe de Portugal do que de qualquer outro país ocidental. Eu, que não sou técnico da ONU, não saberia dizer-vos como se mede a felicidade. Será feliz o hedonista que satisfaz a maioria dos seus desejos? Ou será mais feliz o asceta que vai conformando os seus desejos à realidade? Palavra de honra que não sei. Aliás, dessa terra movediça que é a felicidade só sei duas coisas. A primeira é que tenho medo de um governo, de qualquer governo, que me queira fazer feliz. Ao contrário do que dizia Tolstoi (e é preciso ter lata para desdizê-lo), cada um é feliz à sua maneira e eu não sei de nenhum projeto de felicidade coletiva que não tenha dado asneira. A segunda, paradoxal, é que, mesmo que não possa nem deva fazer ninguém feliz, um governo, qualquer governo, tem sempre a capacidade de fazer muita gente infeliz. E é, pois, só nesta medida, pela negativa, que faz sentido misturar governos e felicidade.

2. Diz-me quem se dedica a estudar o tema, e disto sabe muito mais do que eu, que não existe uma correlação direta entre dinheiro e felicidade. O que parece existir é uma relação entre o empobrecimento (ou o enriquecimento) e a felicidade. Mais do que uma medida absoluta de riqueza, a felicidade é uma consequência do processo de enriquecimento. Em sentido oposto, e (digo eu) com exceção dos casos mais extremos de pobreza, a infelicidade é mais um produto do processo de empobrecimento do que do patamar de rendimento, medido em termos absolutos, para que se evolui.

Ora, tenho para mim que um dos grandes erros do atual Governo tem sido a gestão do processo e dos timings do ajustamento económico. Manifestamente, Passos não leu Maquiavel. Se tivesse lido, saberia que o mal faz-se todo de uma vez. Dito de outra forma, e se esta tese sobre a origem da felicidade estiver certa, se em vez de um empobrecimento gradual, sem fim à vista, se em vez desta angustiante e prolongada queda num poço de que não se vê o fundo, Portugal tivesse experimentado um único choque, com todas as medidas de austeridade servidas de uma vez, talvez o País não tivesse mergulhado numa depressão e numa tristeza tão profundas.

3. Seja como for, dois anos passados desde o início da aplicação desta receita de austeridade, a verdade é que desde o fim da crise política que parou o País antes de férias, há sinais de que volta a despontar alguma confiança. O Governo (em versão francamente melhorada) abandonou a deprimente retórica calvinista de Gaspar, as exportações deram um ar da sua graça, alguns indicadores económicos vieram sugerir que podíamos ter já batido no fundo. Foi quanto bastou para que a esperança, muito frágil ainda, fosse emergindo, aqui e ali. E a esperança, convém não esquecê-lo, mais não é do que a antecâmara da felicidade.

A gestão deste capital é agora crucial. Uma gestão desastrada de expectativas, uma comunicação errática e novas doses de austeridade servidas a conta gotas (já que, infelizmente, não é realista imaginar que esta possa simplesmente ter acabado) podem deitar tudo a perder. Seria absolutamente sádico.

Vistas as coisas pelo lado mais luminoso, o Governo tem, agora, no seu centro de decisão política, alguns "gajos normais" que não deixarão de perceber isto mesmo. Mas a propensão para a asneira continua grande. E a marcação da próxima avaliação da troika para depois das eleições autárquicas parece revelar um executivo mais preocupado em gerir o curtíssimo prazo do que em interromper o ciclo de depressão coletiva que lançou o País para a segunda divisão do campeonato global da felicidade.