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Uma fé que já não é de direita

Pedro Camacho

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No fim, reza esta bíblia, espera-nos um novo mundo, com gentinha modesta mas honesta, trabalhadora e consciente do seu lugar

Pedro Camacho

Vítor Gaspar terá anunciado ontem, já depois do fecho desta edição, as medidas que substituem a falhada redução da TSU para as empresas, pelo menos na versão subsidiada pelo correspondente acréscimo das contribuições dos trabalhadores. E terá, eventualmente, anunciado outras "maldades" para os contribuintes, tendo em vista a execução orçamental deste ano e/ou o Orçamento do Estado para 2013, sejam aumentos de IRS ou lançamento de impostos especiais sobre rendimentos ou património mobiliário e imobiliário. Tudo o que tiver sido anunciado terá já pouca probabilidade de espantar quem quer que seja (e se acontecer o contrário, cá farei mea culpa no próximo comentário). Mas há uma matéria em que o Governo continua a revelar uma inesgotável capacidade de surpreender: quando se julgava impossível fazer pior, consegue sempre ir mais além na sua incompreensível falta de tato na gestão da comunicação com o País. As medidas que toma, por convicção, por necessidade ou pelo efeito combinado das duas, já são o que são. A maneira como as decide e comunica, ignorando os cidadãos, os parceiros sociais, os partidos e o Parlamento, criando uma imagem de arrogância e frieza, torna tudo ainda pior. E é o que volta a verificar-se. As notícias de ontem para os portugueses, serão já história velha para as instituições europeias e para o FMI.

E é neste crescente divórcio do Governo com os cidadãos que surge António Borges. É verdade que Borges não é Governo, e há até quem já tenha afirmado, do lado da maioria, que o problema não é o que António Borges diz ou pensa, é o peso que os políticos e a comunicação social lhe dão. É uma meia verdade. Trata-se de um perito contratado pelo Estado, mas não é um simples perito. É uma voz com peso no Executivo e que traduz bem, neste momento, o que pensa ideologicamente este Governo. Não foi Passos Coelho que considerou ignorantes os empresários que recusaram o esquema de baixa de TSU financiada pelos salários - até porque não é esse o seu estilo (e o de Borges também não era...). Mas podia muito bem ter sido, porque pensa exatamente o mesmo ou coisa pior.

 

A recorrente falta de bom senso do Governo aliada à crónica incapacidade de compreensão dos cidadãos só pode ter uma de duas explicações: ou uma incrível e inultrapassável incapacidade política, o que o torna manifestamente incapaz de governar, ou um deliberado desprezo pela opinião e papel das instituições democráticas e pelos sentimentos dos cidadãos, o que faz dele uma entidade que anda nos limites do que é tolerável em democracia.

E esses limites estão a ser testados. O Governo perdeu todo o capital de simpatia. Tudo o que o faz é, à partida, olhado como potencialmente negativo. E a contestação sobe de tom, degrau a degrau.

É evidente que governar assim não é fácil. Mas é também por demais óbvio que a culpa não é apenas da dureza das medidas. É da falta de sentido de justiça e de equilíbrio. É da maneira como o Governo toma decisões e as comunica. É da sensação que transmite de não saber o que pensam as pessoas das decisões que toma ou da forma como estas as afetam.

 

Na semana passada, numa intervenção no GreenFest, "festival" de sustentabilidade que decorreu no Estoril, Vítor Bento afirmou, a propósito das alterações climáticas que vivemos e das medidas que devemos tomar para evitar uma catástrofe no curto/médio prazo, que olhava para as teorias e políticas de sustentabilidade ambiental com alguma reserva, quer porque acreditava nos desenvolvimentos tecnológicos - o que permitiria manter os atuais padrões de consumo e de utilização de recursos naturais, mesmo em cenário de forte crescimento demográfico -, quer porque acreditava, tinha uma espécie de convicção filosófica, na capacidade regeneradora do próprio Planeta, que sempre encontrou, na sua longa existência, os meios adequados para recriar o seu próprio equilíbrio.

Não consegui, naquela altura, deixar de estabelecer um paralelo entre o que disse Vítor Bento e a atuação e discurso deste Governo. Parece que se movem por uma espécie de determinismo, de fé cega numa qualquer missão sagrada. Há os que entendem a mensagem e há ou outros, os que não entendem, os ignorantes. Tal como há, natural e inevitavelmente, um preço a pagar. Esse preço tanto pode ser mergulharmos a esmagadora maioria da população em décadas de pobreza, como termos de viver uma nova Idade do Gelo. O que é preciso é que não se toque nos fundamentos deste novo liberalismo depurado nas melhores escolas das novas elites tecnocratas. Porque, no fim, parece rezar esta bíblia, espera-nos um novo mundo, com gentinha modesta mas honesta, trabalhadora e consciente do seu lugar, um mundo dirigido pelos melhores e mais bem preparados, capazes de dirigir através de modelos econométricos, um mundo limpo de todas as porcarias criadas ao longo de décadas por um Estado social e democrático que tudo desbaratou com gente que não vale o investimento nem garante retorno.

Este é um retrato distorcido e injusto dos esforços que o Governo está a fazer para tirar o País do buraco em que se encontra? Talvez seja. Mas traduz uma visão dos cidadãos sobre o Governo que é cada vez mais transversal à sociedade portuguesa. Da esquerda à direita, a uma direita cada vez mais à direita. O problema é exatamente este: o consenso está de tal forma largo que o que fica de fora já não é direita, é outra coisa qualquer.