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Os sinais e a cegueira

Pedro Camacho

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O desencanto que desceu às ruas no dia 2 de março é real e inorgânico. E é, por isso, perigoso

Pedro Camacho

A manifestação de 2 de março foi uma manifestação exemplar. Exemplar pela forma pacífica como decorreu, pela forma como recusou a apropriação por parte de qualquer organização política ou sindical, exemplar pela forma como traduziu um desencanto global com este sistema político e com este regime. Foi, por tudo isto, uma manifestação muito mais perigosa e significativa do que se tivéssemos assistido a uma luta campal igual às que costumamos ver na televisão, em imagens de Itália, de Espanha ou da Grécia.

A manif do 2 de março como, antes dela, a de 15 de setembro, juntou empregados e desempregados, estudantes e reformados, juntou gente de quase todos os quadrantes políticos, de quase todas as classes sociais, de quase todas as profissões e interesses. Foi ordeira, foi irónica e, por vezes, até alegre, mas teve, como pano de fundo, uma enorme tristeza, provavelmente uma tristeza que apenas os portugueses são capazes de revelar numa manifestação.

O povo português está triste com a sua democracia, com os seus governos, com o Parlamento e com a Presidência. Está triste com as golpadas palacianas que varrem o País, seja no sistema financeiro seja nas autarquias, onde se trocam batalhas gramaticais para garantir a perpetuação no poder. Está triste com um regime em que as pessoas contam, de facto, pouco. Com um Governo e uma Assembleia de deputados que representa cada vez menos o povo - nem mesmo o povo que o elegeu -, que governa cada vez menos para o povo e ainda menos ao lado do povo.

O que se viu e ouviu no dia 2 de março, para além das bandeiras e da Grândola, foi um País desencantado e sem norte. Um povo que não vê esperança num Governo que mergulha num mar de dúvidas inultrapassáveis, não vê esperança numa maioria parlamentar sem projeto de vida que a una, não vê esperança numa oposição que continua fraca e refém da conjuntura, não vê esperança numa Presidência que se manifesta impotente, discurso após discurso. Nem a vê, tão pouco, na Europa, aquela Europa que, em tempos, surgiu como sinónimo de liberdade, de solidariedade, de humanismo, de celebração da vida e das pessoas, de todas as pessoas.

O desencanto que desceu às ruas no dia 2 de março é real e inorgânico. E é, por isso, perigoso. Não há, hoje, instituição em que os cidadãos se revejam de forma plena. Instituição para a qual possam olhar e vejam uma garantia de defesa dos seus interesses. Pelo contrário, há uma franja cada vez mais larga de pessoas que já nem vê quem se preocupe com a sua simples sobrevivência. Qual Nova Deli, qualquer dia estaremos a apanhar corpos das ruas, ao amanhecer, em Lisboa ou no Porto. Eventualmente com cheques de 8 euros no bolso, endossados ao Presidente da República, para o ajudar a resolver as dívidas do País [como aconteceu recentemente com uma desempregada portuguesa que, num ato de indignação e protesto, devolveu o seu subsídio de reinserção social].

O Governo começa, finalmente, a perceber que esse risco está aí, à porta, e, pelos vistos, os ministros das Finanças da Zona Euro também. E, por isso, nesta última terça-feira, 5 de março, abriram finalmente a possibilidade de prolongamento do prazo de reembolso dos empréstimos que Portugal contraiu, no âmbito do plano de resgate. Já não era sem tempo. A manifestação do desencanto, que juntou dois dias antes muitas centenas de milhares de portugueses em protesto cívico, deu, seguramente, um empurrão determinante para este aliviar da corda que sufoca a nossa economia.

Não tenho, nunca tive e acho que nunca terei, qualquer preconceito em relação à riqueza ou com os ricos - lido mal é com a existência de pobreza. Acho que toda a gente, sem nenhuma exceção, tem o direito de se bater pelos seus interesses, de defender as suas causas e o seu património, seja este grande ou pequeno. Mas tenho uma grande dificuldade em lidar com a falta de senso. É por isso que não consigo entender como é que alguém, como Filipe Pinhal, numa altura em que milhares de pessoas lutam para sobreviver com pensões miseráveis, tem o desplante de criar um "Movimento dos Reformados Indignados" para "tomar posição pública, no quadro da cidadania, para fazer face aos ataques que o Governo está a fazer aos reformados", conforme declarou ao Público.

Caro dr. Filipe Pinhal, faz o senhor muito bem em contratar o escritório do dr. Proença de Carvalho - porque escolhe seguramente um dos melhores - para defender os seus interesses. Ou em juntar-se a outros reformados com interesses semelhantes aos seus, nesse propósito. Mas não se confunda com os reformados.

A Contribuição Especial de Solidariedade que o Governo resolveu aplicar sobre o rendimento, atinge todas as reformas a partir dos 1 350 euros. São precisos quase 52 reformados com um rendimento mensal deste montante para chegar aos 70 mil euros de reforma de um Filipe Pinhal. Há coisas para as quais não vale a pena chamar a atenção. E esta diferença entre a sua reforma e um "reformado" é uma delas. E se não fosse por outras razões que devia guardar o recato quanto a esta matéria, seria seguramente por uma questão de pudor.