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O triste folhetim da crise

Pedro Camacho

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Ao contrário de Gaspar, desistir é coisa para que Passos Coelho não parece estar vocacionado. Falta saber se essa é uma vantagem ou um problema para todos nós

Pedro Camacho

Ao fim de uma interminável maratona de surpresas, que ficará seguramente para a História como um dos episódios políticos mais trapalhões da III República, este dia 2 de julho de 2013 chegou a uma merecida calmia com o cair da noite. Mas deixa muitos feridos pelo caminho. Uns mais resistentes que outros, mas seguramente todos eles em estado comatoso.

O ministro das Finanças, desde logo. Porque é difícil entender porque razão sai de cena, neste preciso momento, Vítor Gaspar. Não sai em glória. Nem sai, sequer, de forma discreta, com o espírito de quem cumpriu uma missão e esteve disposto a pagar o preço pelas difíceis medidas que achou ser seu dever aplicar. Pelo contrário, sai de forma desastrada, revelando, uma vez mais, a falta de bom senso que marcou a sua passagem pelas Finanças. E sai com carta pública, o que é sempre característico de quem sai com contas para acertar e com trabalho deixado a meio caminho. O fim da crise ainda vem longe. Mas até mesmo a gloriosa conquista da confiança dos mercados, de que Gaspar tanto se orgulha, arrisca-se a ficar pelo caminho com este seu desastrado abandono das Finanças. Uma atitude que ameaça, aliás, voltar a colocar em Portugal o rótulo de país de risco.

É verdade que não é a Gaspar que se deve imputar a catadupa de tristes eventos que se seguiram, embora pareça que esteve, desde o primeiro momento, por dentro do processo da sua substituição pela ex-secretária de Estado Maria Luís Albuquerque. Uma nomeação a todos os títulos imprudente.

Deixando de lado a questão das swap, já de si complicada, numa outra qualquer ocasião, bem diferente da que hoje vivemos, Maria Luís Albuquerque poderia cumprir os requisitos para ocupar a pasta das Finanças. Bastaria que Portugal não estivesse a viver a crise que vive, que a coligação governamental tivesse uma coesão que não tem, que o Governo tivesse um peso e uma consistência que também não existe. Ou que Passos Coelho gozasse de uma unanimidade que está longe de alcançar. Se todas aquelas condições existissem, poderia reunir todos os requisitos necessários ao exercício do cargo de ministra das Finanças. Mas a realidade é a que temos, e não outra qualquer, pelo que Maria Luis Albuquerque, sobretudo por falta de peso político, não encaixa nela. Vítor Gaspar devia ter noção deste facto, assim como a própria Maria Luís Albuquerque e, por maioria de razão, Pedro Passos Coelho. Ninguém teve, e Paulo Portas pede a demissão. E é nesta situação surrealista que avança a tomada de posse da nova ministra das Finanças. É difícil imaginar pior entrada.

O pedido de demissão de Paulo Portas está ainda por entender. Porque não tem confiança na nova ministra? Porque não foi tido nem achado na sua escolha? Porque não gostou de ser o último a saber, quer da nova ministra quer da própria saída de Gaspar? Ou não é nada disto, e a "remodelação" foi um bom pretexto para sair? Porque não quer ficar refém de ser o número dois de um Governo que passa a vida a criticar? Porque o seu partido, que tem congresso no próximo fim de semana, já não o quer mais no Governo? Porque acha que o Governo PSD tem os dias contados e o novo ciclo de eleições começa a bater à porta?

Quem souber a resposta certa que a dê. Mas, seja ela qual for, esta é também outra saída inglória. Não é invocada uma razão de Estado, não é invocada uma questão de consciência, não é argumentada uma qualquer discordância política estruturante. Oficialmente, segundo as palavras do próprio Portas, sai porque esta escolha de Passos Coelho não lhe agrada e revela uma falta de interesse e de consideração que torna dispensável a sua presença na equipa governativa (e na coligação?). Ou seja, Paulo Portas sai porque não foi capaz de manter a coligação coesa, não foi capaz de fazer afirmar os valores do CDS-PP na governação ou de fazer valer a sua própria autoridade dentro do Governo. Sai porque falhou e, ironia das ironias, pede para sair no próprio dia em que é anunciada a sua "promoção" a número dois do Governo...

O que atrás fica dito, diz também muito sobre o papel do primeiro-ministro em toda esta crise. Deixou sair Gaspar sem ter garantido que a sua substituição se processaria sem sobressaltos. Escolheu mal a sua sucessora. Deixou o seu parceiro de coligação numa situação de subalternização insustentável neste processo de remodelação - ou, no mínimo, com margem de manobra para poder esbracejar e abandonar o barco. Por fim, deixou mal o Presidente, que deve ter-se sentido verdadeiramente humilhado em todo este processo...

Cavaco Silva afirmou, na manhã deste fatídico dia 2 de julho, que não podiam contar com ele para derrubar o Governo. Veio a saber-se, mais tarde, que o Presidente da República ignorava o verdadeiro drama que se vivia no Executivo. Ao contrário do que pensava, não era apenas da saída de Gaspar que estava em cima da mesa. Era também a desistência de Portas. É fácil adivinhar a irritação de Cavaco Silva com tudo isto. Mesmo depois da explicação de Passos Coelho, de que não pediu a resignação de Portas porque não aceitava a sua saída.

Passos Coelho fez, aliás, uma espécie de ato de contrição público, disponibilizando-se para esclarecer com o líder do PP tudo o que fosse necessário para que a coligação e o trabalho destes dois anos de sacrifícios não fossem deitados à rua. E, no fundo, é disso mesmo que se trata.  São dois anos de sacrifícios, de falências, de despedimentos, de inúmeros sonhos que caíram por terra, que Gaspar, Portas e Passos Coelho colocam em xeque com todo este ridículo processo.  

O primeiro-ministro não se demite. Com meio ano de distância, já é a segunda vez que o diz.  Ao contrário de Gaspar (três pedidos de demissão em dois anos...), desistir é coisa para que Passos Coleho não parece estar vocacionado. Falta saber se essa é uma vantagem ou um problema para todos nós. 

O folhetim vai continuar. Com Portas no Governo ou fora dele. Com coligação governamental ou um mero acordo de incidência parlamentar que garante (alguma) tranquilidade ao Governo até às próximas legislativas - no mínimo, até às autárquicas. Um folhetim que irá continuar enquanto o PS não conseguir convencer que tem força e base de apoio para ser alternativa para gerir o País com um mínimo de estabilidade.