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Juntos, por fim?

Pedro Camacho

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As razões que fizeram fracassar o acordo tripartido são, em boa medida, as mesmas que fazem da coesão deste "novo" Governo um fator de risco acrescido

Pedro Camacho

Passos Coelho e Paulo Portas conseguem bater todos os guiões de uma novela da tarde: por muitas voltas que o mundo dê, está escrito nas estrelas que acabam juntos, e mais próximos que nunca.  O Presidente da República surgiu do nada a dificultar este enredo, mas o "destino" não contemplava soluções a três, pelo que tudo voltou a ser o que estava previsto que fosse, com os líderes do PSD e do CDS a ultrapassarem traições, amuos, mal-entendidos, cascas de banana e todo o tipo de obstáculos imagináveis para acabarem juntos e a partilhar a liderança do Governo.

Mas é um filme triste, tudo isto. Depois das cenas de Vítor Gaspar, de Paulo Portas e de Passos Coelho, depois da demissão "irrevogável" que não é aceite, depois do cumprimento das exigências do Presidente para a manutenção do (de um) líder do CDS no Executivo, veio a "solução milagrosa" de Cavaco Silva, como se um entendimento entre Governo e Oposição, numa situação como a que vivemos, com a legislatura na reta final e com as divergências políticas que separam os partidos da coligação dos socialistas, pudesse ser decidida por decreto presidencial.

Muita gente tenta "descobrir" as mais variadas manobras e cálculos egoísticos na atuação dos diferentes decisores políticos. Prefiro não lhes fazer essa injustiça, e acreditar que fazem o melhor que sabem e podem perante cada situação, e que cometem, como toda a gente, os seus erros. E que, algumas vezes, como aconteceu agora, cometem mesmo erros de palmatória.

Cavaco Silva tentou juntar o PS ao PSD e CDS, num acordo de "salvação nacional", para conseguir uma plataforma política e social muito alargada, que garantisse um apoio inquestionável a meia dúzia de pontos que são essenciais para cumprir a fase final do plano de resgate financeiro. Não foi uma ideia brilhante ou inovadora, mas seria (em tese) uma solução acertada, razoável e que garantiria uma tranquilidade política e social que não pode ser conseguida de outra forma. O erro, aqui, é que não se pedia ao Presidente que fizesse teoria política, mas que resolvesse politicamente a situação de impasse em que o País se encontrava. E a solução possível, na atual conjuntura e com os pressupostos estabelecidos pelo próprio Presidente, não era a solução ideal do acordo alargado. Era, logo naquela altura, a que foi agora aceite: a manutenção do atual Governo de coligação, já com as exigências impostas por Belém.

Passada a crise de Gaspar, Portas e Passos, e passada, agora, a crise de Cavaco, podemos, mais uma vez, sempre com boa vontade, olhar para este período alucinante de rondas negociais tripartidas e ver o copo meio cheio. PSD, PS e CDS andaram a ensaiar um acordo que, infelizmente, com elevada probabilidade, terão um dia de conseguir fechar.

Infelizmente, porque a crise não chega ao fim com a simples manutenção deste Governo. E também porque o ciclo de crescimento não se alcança por simples decreto. Vai ser preciso que o Executivo e a economia mostrem que têm pernas para andar - e num caminho que não será nada fácil de percorrer.

As razões que fizeram fracassar o acordo tripartido são, em boa medida, as mesmas que fazem da coesão deste "novo" Governo um fator de risco acrescido. E enquanto elas não forem afastadas o objetivo de crescimento continuará, também ele, a ser uma quadratura do círculo.

Segundo nos prometem, vamos entrar numa nova etapa, virada para a economia, para o emprego e para o crescimento. Mas continuamos sem perceber como. O discurso que nos chega da Europa, de rigor e austeridade, é praticamente o mesmo de sempre. Os desentendimentos entre PSD e PS (e entre PSD e CDS) mostram que, também em casa, o discurso não é muito diferente. E como parece que ninguém entendeu nada, os dados objetivos do problema, esses, continuam a ser rigorosamente iguais.Noutro plano, a parte mais difícil da reforma do Estado está por concretizar. E sem que ela se concretize, libertando recursos para a economia, não se percebe como poderemos dar início a qualquer ciclo de crescimento que seja sustentável, isto é, em que a descida de impostos e a atribuição de outros estímulos à economia não venham a terminar numa nova espiral de endividamento do Estado e do País.

CDS e PSD estão de novo juntos. Mas, como acontece em todas as boas telenovelas, a vida de casados, até ao último episódio, vai ser atribulada. E o "foram felizes para sempre" é, infelizmente, um desfecho bem distante.