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Discurso inesperado em vitória incontornável

Pedro Camacho

Cavaco Silva não foi capaz de fugir a um discurso "vingativo", um discurso, neste ponto, dececionante e pouco digno de um vencedor democrático

As presidenciais acabaram como era de esperar, com uma vitória esmagadora de Cavaco Silva. Qualquer outro resultado, diferente desta eleição à primeira volta, seria sempre uma surpresa. E a candidatura de Manuel Alegre cedo mostrou que nunca conseguiria o "milagre" capaz de inverter a lógica das coisas, a lógica imbatível de uma maioria de centro, moderada e reformista, avessa a discursos de rutura. Como ficou mais uma vez provado nestas presidenciais que marcam o arranque de 2011, a chamada "maioria sociológica de esquerda" pressupõe um centro-esquerda que prefere votar no centro-direita - que é, ainda assim, o centro -, do que votar numa esquerda que é tão esquerda que já não se reconhece nela.

Cavaco Silva sai claramente vencedor destas eleições, ficando aqui confirmado que um Presidente só muito dificilmente não é re-eleito, que os portugueses prezam o seu perfil ponderado e tecnocrático para ocupar a Presidência nesta difícil conjuntura económica e financeira - e que, por oposição, não viam em Alegre essa garantia. Fazendo um discurso de confiança no futuro, de compromisso com todos os portugueses, de trabalho a favor dos mais desfavorecidos e desprotegidos, Cavaco Silva prometeu também uma magistratura atuante, na defesa das grandes questões nacionais e dos mais fracos e desprotegidos. Mas não foi um vencedor magnânimo. Não foi capaz de fugir a um discurso "vingativo", um discurso, neste ponto, dececionante e pouco digno de um vencedor democrático. Pouco digno, sobretudo, de um Presidente acabado de ser re-eleito, que optou por dividir o seu tempo entre as mensagens de esperança e o objetivo menos nobre de atacar os adversários vencidos, falando de comportamentos "indignos" num discurso despropositado de defesa da "dignidade contra a infâmia".

Quanto a Manuel Alegre, o principal opositor do Presidente re-eleito, sai desta eleição com a imagem de um cidadão que se bate, sem calculismos, pelos valores em que acredita. E mostrou toda a sua fibra, como seria aliás de esperar, no discurso de derrota, quer felicitando o candidato vencedor, quer assumindo pessoalmente a responsabilidade da derrota, quer afastando qualquer ilação deste resultado que pudesse ser penalizadora para Sócrates ou para o PS, um PS que foi obrigado a "comprar" a sua candidatura e que esteve por isso muito dividido e longe de dar o seu melhor na campanha.

Mas a verdade é que Alegre, tal como há cinco anos, não foi, nem nunca seria, um bom candidato para um PS que quisesse sair vencedor deste confronto eleitoral. O seu perfil e a sua história podem fazer dele uma referência de valores indispensável a um partido que se reclama da área do socialismo democrático e que tem, simultaneamente, de exercer o poder num mundo global marcadamente liberal, mas não fazem dele um candidato vencedor, um político capaz de ultrapassar limites ideológicos e somar votos. Pelo contrário, quer o seu discurso - o de "uma candidatura de esquerda contra a direita" - quer os apoios do Bloco e do MRPP remeteram-no para um eleitorado bem mais espartilhado que o do PS, que espalhou votos por quatro candidatos: o próprio Alegre, Fernando Nobre, Defensor Moura, a surpresa Manuel Coelho e, claro, Cavaco Silva. É esse acantonamento à esquerda-esquerda que justifica os poucos votos de Alegre, bem como os extraordinários 14% conseguidos por Fernando Nobre, feito notável para um outsider, não só dos partidos como também da política.

Nas reações partidárias, Sócrates excluiu qualquer interpretação em matéria de Governo, concluiu que o povo tinha optado pela estabilidade e prometeu boa colaboração institucional com o Presidente, enquanto Passos Coelho recusou também retirar ilações sobre legislativas, declarando que o Presidente nada deve ao PSD e que se existirem eleições antes de três anos é porque "alguma coisa de muito mau aconteceu". A ver vamos o que vai acontecer, sendo certo que Cavaco Silva pouco jogo mostrou em termos de futuro próximo e que o seu primeiro discurso ao País depois da re-eleição foi muito pouco tranquilizante e, de alguma maneira, a própria negação do espírito que presidiu ao seu primeiro mandato . De todas as formas, continuo a acreditar que muito mais determinante que as boas (ou más) relações entre Belém e São Bento serão as condicionantes financeiras do País, as que resultarem da nossa própria ação em termos orçamentais ou as que venham do exterior.

Em matéria de governação, ou de ameaça de legislativas antecipadas, assim como de relação institucional Presidente/Governo, os próximos tempos prometem, com toda a certeza, permanente expectativa. Já em matéria de presidenciais, estamos arrumados por cinco anos. E, no fim deste prazo, voltamos a ter condições para que as Presidenciais possam voltar a ser disputadas e minimamente entusiasmantes. Isto, claro, se o PS não for, pela terceira vez, novamente ultrapassado pelos acontecimentos.