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Cândida Merkel

Pedro Camacho

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Tudo podia, de facto, ser bem pior. Como não termos, por exemplo, uma amiga alemã que tanto admira o nosso sacrifício

Pedro Camacho

E tudo vai bem, no melhor dos mundos. Angela Merkel partiu como chegou, de mãos vazias e coração de ferro. Olhos nos olhos, veio até cá para dizer que Portugal está a cumprir de forma exemplar, estoicamente, pelo que não há qualquer razão para que algo mude no atual plano de resgate acordado com a troika. E enquanto as coisas continuarem assim, poderá sempre contar com a amizade alemã.

A chanceler sabe que o esforço é grande e que não se podem esperar grandes resultados de um dia para o outro. A chanceler diz que sabe... mas saberá mesmo?

Terá Merkel a noção do perigo de colapso que ameaça hoje grande parte da economia, sobretudo as inúmeras pequenas e médias empresas que suportam uma parcela enorme do emprego em Portugal? Terá ela noção do sufoco financeiro em que vive já uma percentagem muito significativa de famílias portuguesas, afetadas pelo crescimento do desemprego e pelas reduções generalizadas de rendimento? Terá ela noção da quantidade de pais que não aguentam os custos da saúde ou da escola dos filhos? Terá noção dos milhares de portugueses da classe média que chegaram ao limiar da pobreza, agarrados a obrigações financeiras que não vão poder cumprir? E terá noção dos muitos que caíram já em situação de pobreza extrema - e, muitas vezes, na pior das pobrezas, a pobreza escondida e envergonhada de quem nunca antes teve de viver dependente da ajuda de terceiros? Terá ela noção da situação de pré-colapso em que se encontram setores inteiros da economia portuguesa? Ou da asfixia financeira de numerosas empresas, institutos e serviços do Estado? Saberá ela que as universidades portuguesas e a investigação científica em Portugal estão em risco de deitar por terra anos de desenvolvimento, por falta de apoio financeiro, público e privado? Terá ela uma noção, mínima que seja, do que poderá acontecer a partir de janeiro, quando entrarem em vigor as medidas recessivas aprovadas com o Orçamento do Estado para 2013?

Sim, como diz Angela Merkel, Portugal está a viver um momento difícil e os portugueses estão a percorrer um corajoso caminho de correção dos erros cometidos no passado. E ponto final. Desiluda-se quem retirou qualquer tipo de esperança das meias-palavras, proferidas aqui e ali, seja pela própria chanceler seja por outros responsáveis políticos ou tecnocratas alemães, sobre os riscos do excesso de austeridade. Desta líder alemã sabemos agora muito bem o que devemos esperar: tudo deve continuar como está. Porque a não existência de um plano de resgate seria seguramente pior. E porque a revisão do atual acordo com a troika, nas suas linhas essenciais, quer de prazo de pagamento quer de juros a pagar, é, pura e simplesmente, uma "não-possibilidade" que, por qualquer razão insondável, não pode sequer ser colocada no campo das hipóteses.

Passos Coelho, no entanto, percebe bem o que diz a chefe do Governo alemão. Resultado final de uma dialética mental, interna, impossível de seguir pelo comum dos mortais - exceto, talvez, pela própria Merkel -, acedemos apenas à conclusão repetida pelo primeiro-ministro de que renegociar os termos do plano de resgate seria procurar um resultado pior do que aquele que temos hoje, porque significaria comprar ainda mais austeridade. O primeiro-ministro devia, um destes dias, dedicar um pouco mais de tempo a explicar a sua taxativa conclusão aos portugueses, porque não se percebe se ela advém da realidade política e financeira com que tem de lidar, ou se resulta de uma qualquer premissa axiomática que o chefe de Governo resolveu adotar a fim de consolidar a fé que lhe permite persistir neste estreito caminho. Mas arrisca-se, numa manhã não muito distante, a acordar com apenas Merkel a seu lado. Neste cenário pouco entusiasmante mas, apesar de tudo, plausível, vai ter apenas a consolação de que para Merkel também não há, em definitivo, espaço para planos "B".

Após a visita da chanceler, podemos, no entanto, ficar tranquilos quanto a uma questão: a intransigência não resulta de qualquer problema da Alemanha com Portugal. É bem pior que isso, é um problema da Alemanha com a Europa. Como disse Merkel, "estamos" (os povos e os líderes europeus? A Alemanha, líder, de facto, da União Europeia?) a aplicar um caminho de austeridade na Europa (estará Merkel a "refundar" a Europa?). Um caminho que, afirmou, não é compatível com o questionar constante das decisões tomadas, com o estar sempre a olhar para trás. Ou seja, é preciso seguir em frente, custe o que custar, porque não é de um problema com Portugal que se trata, é de uma questão maior - mas que, por isso mesmo, também não deixa espaço para compaixões com países como Portugal.

Como diria Cândido, de Voltaire, "tudo vai pelo melhor no melhor dos mundos possíveis". Portugal cumpre, a austeridade está em curso, e está para ficar, e Merkel garante que a história terá um final feliz, tão feliz que contará, num destes dias, com a chanceler a banhos numa das nossas belas praias da costa alentejana ou algarvia, em férias que ficaram publicamente prometidas.

E é este o mundo possível que temos e que podia, de facto, ser bem pior. Basta pensar na possibilidade de não termos uma amiga do peito como a chanceler Merkel, que tanto admira o nosso sacrifício. Ou não termos, mesmo, um primeiro-ministro que a percebe assim, tão bem.