Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A grande lição do euro... 2012

Pedro Camacho

  • 333

Tínhamos de mostrar ao mundo que éramos alunos empenhados e deixar à troika a decisão de aliviar a pressão. Esse tempo chegou ao fim

Pedro Camacho

Perdemos, mas somos muito bons. Essa é a lição, rara, que tiramos da nossa prestação no campeonato europeu de futebol. Pela primeira vez, não fomos bestiais nem saímos bestas. Fomos o que somos, e fomos claramente bons, atendendo às probabilidades de êxito, numa competição destas, de tem um país de 10 milhões de habitantes. Foi boa a seleção, cada um dos jogadores, o treinador. Provavelmente, fomos até melhores do que era lógico esperar. Mas em tudo o resto continuamos na mesma: passamos do oito ao oitenta.

E na política, essa parece ser uma regra de que não abdicamos. Passamos de Sócrates a Passos, e corremos já um sério risco de este último conseguir provar que é tão teimoso quanto o primeiro. Em lados opostos, mas igualmente "durões". É assim, os portugueses gostam de "tipos" duros, que lhes digam tudo o que devem e não devem fazer, "tipos" cheios de convicções, às vezes cheios também de si próprios... Outras vezes nem tanto, mas apesar de tudo com a certeza de que nunca têm dúvidas e raras vezes se enganam. Ou, pior do que isso, os que raras vezes têm dúvidas, e que nunca se enganam, o que é uma cegueira ainda mais perigosa.

Os problemas que estamos a sentir com a execução orçamental, que promete deixar o País longe da meta a que se comprometeu com a troika, de um défice máximo equivalente a 4,5% do PIB, este ano, começa a deixar  o primeiro-ministro com uma imagem perigosamente próxima da tal figura que nunca se engana, aquele tal indivíduo que está sempre certo, e que nunca irá ceder por muito que a realidade o contrarie. Esperemos que seja apenas uma aparência enganadora, porque já tivemos gente assim demasiadas vezes. Mas era bom que Passos Coelho desse um qualquer sinal capaz de afastar definitivamente esta dúvida. Porque, às vezes, também ele dá ares de ser um daqueles portugueses que gosta de quem aparenta não ter dúvidas nem nunca se enganar, mesmo que tenha cara simpática e sorridente e fale em alemão, enquanto nos põe na ordem. 

As contas públicas não estão absolutamente mal. Não é preciso boa vontade para encontrar vários sinais positivos, mas estão globalmente bastante mal e prometem piorar se nada de diferente for feito. Isto é certo e seguro, porque a chamada "economia real" piora de dia para dia e vai continuar a piorar. Vai continuar a atrofiar-se, e não será lentamente. Vai ser duro e vai ser feio.

Por isso, a execução orçamental vai continuar a falhar nas áreas em que já falha hoje, nos impostos indiretos sobre o consumo e nas contas da Segurança Social, quer no lado das receitas, com a redução substancial das contribuições sociais, quer, sobretudo, no lado da despesa, crescentemente sobrecarregada pelo desemprego e pelas prestações sociais.

Tirando alguma animação sazonal, conseguida à conta de empregos e negócios por dois meses e do que resta de subsídios de férias já chamados a tapar outros buracos, não é preciso ser um génio para perceber que o fim do verão não abrirá as portas do paraíso. Entraremos, nessa altura, com grande probabilidade, num período de verdadeira vida ou morte para muitas empresas e atividades. Esperemos, por isso, que o Governo não caia no erro de tentar remendar as fragilidades deste orçamento com mais austeridade, porque, dessa forma, vai apenas aumentar a bola de neve que já aí vem, encosta abaixo.

Existem mil e uma razões para ser difícil governar, nos dias que correm. E outras tantas para falhar nos pressupostos e previsões orçamentais. Porque a dimensão desta crise é, de facto, muito diferente de outras que já atravessámos; porque a interdependências das economias é hoje maior que nunca; porque a nossa margem de autonomia para gerir os problemas, pelo contrário, é muito estreita; porque a crise é crescente, é global, é errática; e, até, porque os grandes players globais também já não são apenas os do costume.

Mas, bem vistas as coisas, tudo isto são motivos para não se ter certezas absolutas. São razões para admitir mudanças de rumo, são argumentos que tornam indispensável a existência de um ou mais planos B.

Apesar de marcadamente liberal, sempre achei que o discurso do Governo português, junto da troika, à porta fechada, seria parcialmente diferente daquele que fazia para consumo público. Sempre achei que era necessário mostrar ao mundo que éramos bons alunos e deixar à troika o papel de concluir que tínhamos de abrandar o nível de esforço.

Esse tempo chegou ao fim. Se a Comissão Europeia, o FMI e o Banco Central Europeu não conseguem ver o que se passa, é bom que comecemos a mandar-lhes, desde já, sinais de aviso que sejam claramente visíveis. Não podemos passar do oito ao oitenta. Mas também não podemos morrer, feitos uma Grécia, amarrados a um oito irrealista e, pior que tudo, ruinoso e insustentável.

É hoje indiscutível que Portugal precisa de mais tempo e melhores condições para cumprir os seus compromissos. Fomos ambiciosos e apontámos à final. Mais vale arrefecer os ânimos da sra. Merkel e aspirar aos quartos de final. Com sorte, chegamos às meias-finais, e o euro, seguramente, não correrá riscos de morte com qualquer um destes desfechos - pode, até, evitar ter um qualquer colapso, num destes dias. Seria um excelente resultado para nós. Para nós e também para os alemães, porque a verdade é que não tinham, nem têm, os argumentos que julgavam ter.