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Uma entrevista

Miguel Carvalho

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Foi para permitir aos Sócrates desta vida o disparate, a ofensa ou a sua defesa que a democracia foi feita

Dois maus perguntadores. Com tremeliques a mais e pulso a menos. Melhor Vítor Gonçalves, apesar de tudo. Uma entrevista curta - sim, curta - para o tanto que há para esmiuçar (quando é que os canais de televisão entendem que isto interessa mais às pessoas do que pensam?).

Sócrates: no início, menos preparado do que nos "bons tempos". Mas depois a entrar nos eixos. Houve alguma coisa da estratégia de sempre: rodeios, repetições, irritações, inverdades e pestanas cerradas de indignação para telespectador ver. Fuga a algumas explicações. Várias, diria. Nomeadamente no BPN, nos aumentos na função pública e no aumento da dívida. Responsabilidades? Quase nenhuma assumida. Mas há que dizer que, concordando ou discordando dele, se defendeu bem. O cenário atual ajuda a que pensemos como ele. Isso, sim, é que é capaz de ser ainda mais perigoso.

E depois, em duas ou três situações, o Sócrates que se julgava já não existir: o maior ataque alguma vez feito a um Presidente da República em exercício desde Ramalho Eanes. Implacável e, goste-se ou não, dizendo em voz alta coisas que muitos pensam em voz baixa. Cavaco merece-o, se me permitem. Tornou insuportável a ideia que tem de si próprio, como se fosse a Imaculada Conceição do regime. Sócrates ainda: razoável na descodificação dos embustes. Melhor na explicação da opção Paris e dos gastos adjacentes. Mau na perseguição a Paulo Ferreira, um jornalista qualificado, goste-se ou não do estilo. Pergunta para o futuro: quando é que António José Seguro faz as malas? Pior do que ser oposição é não precisar de a fazer porque alguém a fará todas as semanas, sem ares sacerdotais, com picante, passado recente e estilo. E um tempo de antena que mais nenhum socialista terá durante algum tempo.

Para rematar: lamento, mas não partilho da tese de que o regresso de Sócrates ao comentário político é uma ofensa e uma indignidade. Insuspeito de apreciar a personagem, sou daqueles que considero que a democracia portuguesa também se faz dos seus erros e defeitos, dos seus melhores e dos seus piores. Um deles não é culpa de Socrátes: é culpa de quem faz escolhas editoriais e mediáticas que permitem a ex-líderes políticos e deputados sem qualificação ocupar o espaço mediático para depois nos queixarmos todos da falta de pensamento próprio e mentes arejadas. Sócrates tem direito a defender-se e a participar no jogo democrático. Onde ele quiser e o deixarem.

O País que defendo, e pelo qual muitos lutaram, é permitir a voz até àqueles que, no limite, não acreditam na democracia. E a tirania, não se esqueçam, também passa por reduzir os adversários a um grau de não nocividade política (sei do que falo: foi um fascista, daqueles a sério, que me disse). Foi para permitir aos Sócrates desta vida o disparate, a ofensa ou a sua defesa que a democracia foi feita. Alguns podem estar esquecidos. Manuela Ferreira Leite queria suspender o regime por seis meses, por exemplo. Mas dar voz a Sócrates, mesmo depois de tudo o que fez ou achamos que nos fez, é a única opção correta, justa e digna. E essa é a única verdade que nos salva sempre dos nossos próprios fantasmas.