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Novos e velhos

Miguel Carvalho

Este País, de facto, não é para velhos. Mas pergunto: será para novos?

<#comment comment="[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false PT X-NONE X-NONE MicrosoftInternetExplorer4 <#comment comment="[if gte mso 9]> <#comment comment="[if gte mso 10]> Parece que uma boa dúzia de portugueses, daquela dúzia habituada a frequentar cargos públicos e políticos de relevância e que agora aparece nas televisões como salvadora da pátria, descobriu, indignada, que andam idosos a morrer abandonados e esquecidos nas suas casas. O assunto, para quem ainda lê jornais ou tenta ver algo de decente na televisão, não é de hoje. Podia, aliás, em poucos minutos, recolher uma resma de reportagens sobre o tema que foram publicadas ao longo de anos pela Imprensa, mas a memória, como sabemos, é seletiva.

Nos idos de 1998, um grande jornalista, Luís Pedro Cabral, escreveu uma reportagem n' "O Independente" sobre os velhos que, no Alentejo profundo, se penduravam numa árvore para pôr fim à vida. Nunca mais me esquecerei do título: "O monte dos enforcados". Nesse texto, aliás brilhante, o Luís Pedro descrevia o cenário de morte lenta vivido pelos idosos naquela região do País. Tínhamos saído do "paraíso" cavaquista e entrado na ilusão guterrista. No relato do Luís Pedro estavam, porém, as respostas para uma pergunta que ainda hoje dói: o que leva uma pessoa que entrou na última etapa da existência...a matar-se?

Não há distância entre estas mortes voluntárias e a idosa que morreu sem ninguém querer saber disso durante oito anos. Em ambos os casos, trata-se de uma espécie de suicídio assistido por parte de um País que promove a desesperança, o egoísmo e a angústia. Ontem como hoje. E provavelmente ainda amanhã.

Neste País, morre-se na zona raiana de frio, desalento, tristeza e solidão. E, por vezes, de escuridão.

Neste País, permitimos que haja quem ostente o título de capital europeia dos suicídios.

Neste País, há idosos a viver isolados nos montes, que telefonam para uma junta de freguesia a inventar doenças que não têm para terem a visita da ambulância ou alguém com quem falar.

Neste País, há quem ocupe as urgências dos hospitais para ter motivo de conversa e rever cúmplices de maleitas.

Neste País, há quem se dirija às farmácias com uma ementa gourmet de medicamentos passada pelo médico, mas depois não tenha dinheiro para passar sequer da "entrada".

Neste País, onde a caridade foi transformada em negócio de Estado ou à sombra dele, há idosos que continuam a ser vítimas do nosso egoísmo, da falta de vizinhança, da incapacidade de olharmos para além do fardo que, pelos vistos, representam.

Este País, de facto, não é para velhos.

Mas pergunto: será para novos? Está aí a "geração parva", já precária antes de chegada à idade em que se percebe que a precariedade é uma coisa garantida pela passagem do tempo.

A idosa de Sintra foi descoberta por causa de uma dívida. Na vida, já dizia o outro, temos duas coisas garantidas: a morte e os impostos. A frase assenta bem a um País onde os velhos são deixados à sua sorte e os recém-nascidos serão obrigados a ter número de contribuinte antes de saberem dizer "Papá", "Mamã" ou "Sócrates".