Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A vulgaridade exposta

Miguel Carvalho

A declaração de Cavaco Silva ao País sobre o chamado "caso das escutas" torna-o definitivamente mortal aos olhos de quem o julgava com dotes divinos

Nunca percebi as razões para o endeusamento sustentado da figura de Cavaco. Nem, confesso, a especial deferência pelas supostas qualidades excepcionais do professor. De resto, basta olhar para o actual estado do PSD para perceber que o partido ainda paga o facto de algumas cabeças pensantes da social-democracia à portuguesa se terem anulado constantemente perante tão esfíngica figura ao longo de anos. Os resultados estão à vista.

Cavaco foi Primeiro-Ministro em anos de vacas gordas.

Mudou Portugal? Mudou. Tornamo-nos um País de patos bravos sem saber ler nem escrever. De horizonte e de futuro, os seus governos deixaram menos que zero. Mas o cavaquismo fez escola: um crescimento pensado a betão e asfalto, liberalismo sem freio e uma certa modernidade tecnocrática. E, já agora, um dos períodos de maior descrédito da política portuguesa. Os seus rapazes, aliás, ainda hoje fazem estragos. E não precisamos de ir mais longe do que o caso BPN.

Mas, vá lá saber-se porquê, o homem foi sempre tratado como se tivesse capacidades invulgares e um pensamento brilhante. À esquerda e à direita, o País elogiou-lhe méritos de monta e amiúde reviu-se naquele ar distante, quase sebastiânico. Os silêncios e vãs reflexões mereceram enternecedoras e laudatórias referências, na tentativa de lhe adivinhar uma genialidade escondida. O PSD, de resto, ainda suspira pelo seu afecto e carícias e amua quando não os tem.

Muitos discursos lidos e ouvidos e confesso-me incapaz - defeito meu, certamente - de descobrir nas palavras do Presidente da República um desígnio, um sobressalto cívico ou um olhar verdadeiramente redentor sobre o País. Cavaco, Primeiro-Ministro e Presidente da República, é um esforçado português, mediano de qualidades, saberes e capacidades, sem virtude nem alento que nos livrem da morrinha.

Agora, a sua declaração ao País sobre o chamado "caso das escutas" torna-o definitivamente mortal aos olhos de quem o julgava com dotes divinos. Atira a pedra e esconde a mão. Lança novas interpretações e mistérios. Não confirma nem desmente coisa nenhuma, antes pelo contrário: junta ainda mais suspeitas às teses conspirativas e mais lama à chafurdice. Já tínhamos pântano, disfarçado de cinismo e hipocrisia institucional. Agora temos, com uma clareza meridional, a fractura exposta da nossa vulgaridade.