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Que perspectivas para 2010?

Mário Soares

Tenhamos pois confiança e continuemos em frente, aproveitando bem as nossas potencialidades e recursos. Os portugueses são um grande Povo!

Foi esta a pergunta que me fez a VISÃO. Num mundo em acelerada mudança, como o nosso, a imprevisibilidade deve ser a regra. A prudência aconselharia, portanto, a não responder. Mas na incerteza do tempo que vivemos - que angustia tantos dos nossos compatriotas - pensei que poderia ser estimulante tentar responder ao desafio da VISÃO, enfrentando todos os riscos que comporta e contra a corrente.

Começarei, assim, por balizar a pergunta. Portugal, hoje, não vive isolado. O tempo em que estávamos "orgulhosamente sós" passou, felizmente e não volta mais.

Hoje somos membros de pleno direito da União Europeia, onde temos - e teremos - cada vez mais, espero, uma presença interactiva. Estamos, por isso, bastante condicionados pela evolução da União Europeia, embora não, em absoluto, dependentes. Temos outras cartas para jogar. Alargámos o espaço da Lusofonia, para além de Portugal, aos cinco países africanos e a Timor, independentes entre os quais conta, decisivamente, como grande potência, o Brasil. O futuro de Portugal será também condicionado pela evolução da CPLP. Porque a CPLP não é só a defesa da língua comum. É, também, uma Comunidade, embora incipiente, solidária nos seus interesses políticos, económicos e culturais. Mas não só.

Temos relações privilegiadas - económicas, políticas e culturais - com a nossa vizinha Espanha e com a Ibero-América, em grande mutação. Isso significa que o Atlântico é um mar que fala português, onde temos uma Zona Económica Exclusiva que é a maior da Europa, com imensas riquezas inexploradas. Aí temos outro dos dados que podem e devem condicionar o nosso futuro. Para mim, constitui mesmo uma prioridade nacional.

Expulsemos, assim, a ideia absurda - que paira em tantos portugueses - de que Portugal é um país pequeno, ínfimo, que não conta no mundo e de futuro incerto. Não é assim. Nem pela sua geografia, nem pela história, nem pela economia (em crise agora), nem pela qualidade da sua gente e pelas enormes potencialidades que daí resultam.

Temos hoje elites jovens, em todos os campos de actividade - na Ciência, nas Artes, nas Letras, na Técnica, no Empresariado, na Informática, no Desporto - como nunca tivemos, mesmo nos tempos gloriosos em que chegámos à Índia e descobrimos o Brasil. E ainda grandes e excelentes universidades, embora algumas com falta de meios. Tenhamos, pois, confiança em nós mesmos e em Portugal.

É certo que o mundo está inseguro e perigoso. Vive uma crise global que alguns economistas dizem estar a passar (aqueles que se enganaram sempre e que não previram a crise). Não creio, infelizmente, que seja verdade. Há sinais de melhoria, é certo, sobretudo no plano financeiro. Mas não houve coragem, até agora, para mudar o modelo de desenvolvimento do capitalismo financeiro-especulativo, sem preocupações sociais, ambientais e de justiça.

O dos paraísos fiscais, das grandes transacções financeiras virtuais, da corrupção, de uma globalização desregulada, sem ética, com algumas graves roubalheiras, ainda não punidas, onde o único valor parece ser o do dinheiro, o vil metal. Ora, sem mudar este modelo de desenvolvimento é praticamente impossível que a crise global não volte em força. Mas não só no plano financeiro, sem correspondência na economia real. Também no domínio da desordem internacional, do aumento da criminalidade e de revoltas sociais e políticas graves. Para além do descrédito dos políticos, da Política, dos banqueiros e empresários e dos grandes grupos económicos da comunicação social. Acrescente-se a este rol a crise da Justiça, a pior de todas. O neoliberalismo foi a semente ideológica de tudo isso...

É previsível e grave que as Nações Unidas continuem a ser marginalizadas, por grupos criados ad hoc e sem legitimidade - G7, G2, G20, etc. - da mesma maneira que a relação de forças internacionais muda aceleradamente num sentido bastante imprevisível. Como o fracasso da recente Cimeira de Copenhaga demonstrou, não há qualquer projecto consistente de governação mundial e está a impor-se uma nova divisão do mundo em dois - Estados Unidos e China - que é, em si mesma, difícil e não augura nada de bom num mundo cuja relação de forças se tornou multilateral.

Barack Obama, com excelentes e generosas ideias, parece estar a ficar demasiado condicionado pelos grupos de pressão politicamente transversais, dos republicanos e de alguns democratas. E pelo complexo industrial-militar, já denunciado por Eisenhower. Esperemos que os vença. A China, que é hoje um colosso económico e financeiro incontestável, oscila entre o pior comunismo e o capitalismo mais selvagem. Até quando se manterá essa contradição insanável? Eis uma questão decisiva, cuja resposta, em termos de futuro, é muito difícil.

A União Europeia continua paralisada, política e economicamente, dada a falta de lideranças carismáticas e que saibam para onde devem caminhar. Voltada para as suas próprias contradições, políticas e económicas, apesar da aprovação do Tratado de Lisboa, os egoísmos nacionais continuam a pesar e a Comunidade, como um todo, pouco ou nada determina os negócios do mundo, como se viu também em Copenhaga. É muito preocupante!

Contudo, e apesar deste quadro que não é nada simpático, há um fenómeno novo, entre outros, que pode modificar as sociedades democráticas: o advento da cidadania global. Isto é: a consciencialização crescente das populações, nos diferentes Estados e em todos os continentes, que têm a percepção cada vez maior que vivem numa Casa Comum - a Terra - e que sentem ter desafios de paz, de direitos humanos, sociais, ambientais, políticos, económicos, de justiça, de dignidade no trabalho e de um mínimo de bem-estar, para todos, que se julgam obrigadas a vencer. Não vão desistir de lutar. Em paz, nas democracias que sejam capazes de as ouvir; e, nos países sem liberdade, recorrendo, mais ou menos, a meios violentos...

Não devemos subestimar a cidadania global, a consciência das desigualdades gritantes das populações, cujas consciências ferem o desprezo pelos Direitos Humanos, a pobreza, a criminalidade impune, as pandemias que poderiam ser tratadas e não o são suficientemente, os desafios que um planeta ameaçado nos coloca. Foram, aliás, essas preocupações que levaram a ONU - e bem - a proclamar os grandes Objectivos do Milénio. Todos os Chefes de Estado e de Governo os subscreveram. Passaram dez anos e, no entanto, nada melhorou.

Pelo contrário: agravaram-se. Os grandes interesses egoístas continuam a sobrepor-se a tudo. Os países ditos desenvolvidos, tradicionais e emergentes, ignoram-nos e teimam em aprofundar o fosso terrível entre pobres e ricos, sem visão de futuro nem sentido ético.

É o que torna o mundo tão instável e perigoso. A continuar assim, caminhamos para um desastre de dimensões universais, contra o qual é urgente reagir. Basta pensar no que nos pode acontecer se tantos governos insistirem no mesmo caminho. Não esqueçamos que o bom senso - já dizia Descartes - é a qualidade mais bem repartida entre os humanos. Quando não se fazem reformas surpreendem-no as revoluções...

Neste contexto, os portugueses - devemos reconhecê-lo - são privilegiados. Pertencemos ao mundo democrático e livre dos mais favorecidos. É óbvio que Portugal está em crise. Temos um défice assustador e um endividamento grande. Mas já passámos por crises piores - nos últimos 36 anos -, sem norte, nem aliados e conseguimos vencê-las. Não é o caso agora. Nessa altura não pertencíamos ao primeiro mundo, apesar de termos - ou julgávamos ter - colónias... Mas, colectivamente, os portugueses eram muito mais pobres do que hoje são, sem as ter.

A repartição da riqueza, é verdade, continua a ser muito injusta. As desigualdades sociais são intoleráveis. Mas já ninguém anda descalço, embora haja certas categorias sociais, hoje, que passam muito mal: os desempregados, por exemplo. Mas também certos pensionistas e reformados. Ainda somos um país de emigrantes, mas recebemos hoje muitos imigrantes que vêm para Portugal para ganhar as suas vidas. Daí que a prioridade das prioridades, para garantir a paz social, reduzir a criminalidade e vencer a crise, consista em arranjar trabalho digno para os que o não têm, portugueses e imigrantes, os quais devem ser tratados com igual dignidade. E investir naquilo que é produtivo e necessário, a pensar nos mais desfavorecidos.

Não somos a Grécia, nem a Irlanda - muito menos os países bálticos - nem mesmo a nossa vizinha e amiga Espanha. Tenhamos confiança e bom senso, que são coisas - reconheçamo-lo - que não abundam entre alguns políticos e empresários portugueses. Encaremos, com inteligência, coragem e sem complexos as crises global e estrutural, que se fazem sentir no nosso país. Como, aliás, em tantos outros da nossa União Europeia. Tenhamos, para as vencer, uma política concertada, em termos de concertação social, e não nos limitemos a apagar os fogos que surgem, sem uma visão de conjunto, a curto prazo.

A crise da Justiça é a mais grave de todas: mais do que a económica, a financeira, a social ou a política. Tenhamos a lucidez, a imaginação e a coragem necessárias para a combater.

No ano 2010 celebra-se o Centenário da República. Temos de aprender com os erros da I República, que, apesar deles, continua a ser uma referência para a nossa II República. Para todos os democratas e republicanos. Sejamos lúcidos, rigorosos e não nos deixemos abater pelo pessimismo derrotista. Povos, como o português, não se deixam abater. Sobretudo quando há trinta e poucos anos, num momento nacional tão triste e apagado da nossa História, a Revolução dos Cravos foi capaz de nos abrir horizontes de esperança, progresso e liberdade. Não podemos esquecer esse exemplo, uma revolução de incontestável sucesso - e pacífica - que acabou com 48 anos de ditadura e nos restituiu um novo rumo nacional de liberdade, paz e um prestígio internacional perdido. Quem poderia prever que tudo seria tão fácil e natural?

Tenhamos pois confiança e continuemos em frente, aproveitando bem as nossas potencialidades e recursos. Os portugueses são um grande Povo!