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Barack Obama e a mudança

Mário Soares

Bem-vindo, Barack Obama, à Europa! Espero que ajude os dirigentes europeus a renunciarem ao neoliberalismo. É uma nova era que começa

Barack Obama tem vindo a mudar muito, em pouco tempo, quer a América quer, psicologicamente, o resto do mundo, excedendo as expectativas dos mais optimistas. Internamente, com um plano consequente de ataque à crise que, sendo posto em acção, apesar dos cépticos e dos republicanos mais cavernícolas, tem sido saudado por grandes economistas. Evitou a falência anunciada de grandes instituições financeiras, bancos e companhias seguradoras, mas não deixou de exigir rigor e moralidade aos gestores das empresas beneficiadas.

A justiça americana também ajudou: punindo exemplarmente e com enorme rapidez o grande escroque internacional Bernard Madoff. Está na cadeia, condenado praticamente à vida e a mulher foi obrigada a restituir quadros e preciosidades, para indemnizar os lesados. Outros se seguirão.

Tem estado a valer aos mais pobres, tentando incutir-lhes confiança e esperança no futuro. São fundamentais. Está a procurar reanimar os investimentos nas áreas mais depressivas. É certo que a actual crise é bem mais complexa do que no tempo do new deal. Mas Obama está atento. Tem dado sinais disso mesmo: em matéria de saúde, educação, segurança social, protecção aos mais pobres e aos discriminados.

Ainda no plano interno - com consequências no domínio externo - acabou com a tortura e está a esvaziar Guantánamo. Prometeu começar a retirar as tropas do Iraque e está a compreender que o Afeganistão é um problema muito mais sério do que julgava. Já disse estar disposto a falar com os talibans. E está a procurar uma solução para terminar a guerra. Pôs a descoberto a situação problemática do Paquistão e pretende ajudar a estabilidade do País. Estendeu a mão, numa carta extremamente significativa, ao Irão. Manifestou vontade de falar com o Hamas e tem uma política de paz entre os dois Estados: Palestina e Israel, que estão no centro de todos os conflitos no Médio Oriente. Com Obama não haverá mais países do "eixo do mal" e a luta contra o terrorismo, que continua, será prosseguida com inteligência e ouvindo os Aliados. Não de forma unilateral.

Voltou, claramente, ao multilateralismo, dando um novo prestígio às Nações Unidas. Não quer ser o Presidente de um país que se considerava o "dono" e o "polícia" do mundo. Mas sim de um país que ama a paz e as negociações em igualdade de condições com todos os outros. Trabalhar para a paz, em diálogo igualitário e negociações directas com os interessados, é agora o objectivo da América. Sejam eles quais forem, renunciando à violência nos seus vários aspectos. Voltou-se, assim, aos grandes valores do humanismo universalista, ao humanitarismo e ao pioneirismo, retomando a melhor tradição americana.

É óbvio que Barack Obama não é um santo. É um grande patriota, que não descura os interesses vitais do seu país, em todos os domínios, como não se tem cansado de sublinhar. Tem inimigos e detractores? É evidente que os tem - e temíveis -, visto manifestar a intenção de ferir interesses, que não deixarão de reagir contra ele, com todas as armas. Estão a aparecer e a

organizar-se depois da derrota sofrida. Mas, por isso mesmo, também tem muitos amigos e despertou um dinamismo político na intelligentzia, nas universidades e no melting pot das etnias americanas, absolutamente excepcional. Em Trinidad e Tobago, no dia 19 de Abril, vai encontrar-se com a América Latina, com a ajuda de Lula - o primeiro Presidente que recebeu na Casa Branca - e com vontade de abertura a Cuba... Que se podia exigir mais em dois meses e pouco de Governo?

Bem-vindo, Barack Obama, à Europa! Espero que ajude os dirigentes europeus a renunciarem ao neoliberalismo. É uma nova era que começa. Para bem de todos e da nossa Aliança Atlântica.