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Assumir responsabilidades

Mário Soares

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Portugal, com o atual Governo, só sabe entender-se, como um vassalo, com a senhora Merkel, a troika e os mercados usurários que a dominam

Mário Soares

O que a Europa está a viver é inédito e de uma gravidade imensa. Qualquer europeu - mesmo dos menos esclarecidos - quando pensa na incapacidade dos atuais minilíderes, incapazes, sem rumo, tino nem ideias, não pode deixar de sentir que a Europa está em risco de desagregação iminente, se os dirigentes europeus, a começar pela nefasta senhora Merkel e a acabar no péssimo exemplo do Chipre, não mudam: a Europa vai necessariamente desaparecer, com as terríveis consequências que daí resultam. Com grande responsabilidade dos atuais partidos ultraconservadores e neoliberais, tendo-se os partidos fundadores - os socialistas e os democratas-cristãos - praticamente apagado.

Perdeu-se a solidariedade entre os Estados-membros e a igualdade entre eles, dois valores essenciais para a sua criação e o seu desenvolvimento. O euro, que ainda é hoje uma moeda forte, se o descontrolo europeu continuar pode entrar em colapso; e imagine-se as consequências que isso teria. Seria o regresso aos tempos do passado, anteriores à II Guerra Mundial, e a possibilidade de voltarmos a uma nova guerra mundial.

Portugal, com o atual Governo, só sabe entender-se, como um vassalo, com a senhora Merkel, a troika, cujos elementos ninguém sabe quem comanda, e os mercados usurários que a dominam. A terrível austeridade tem vindo a destruir o nosso belo país e a empobrecê-lo por todos os lados.

Realmente, todas as previsões do ministro Vítor Gaspar, que é, sem contestação, quem manda no Governo, se revelaram erros sobre erros, chegando ao desastre, aparentemente sem remédio, em que nos encontramos. E continua, implacável, graças à obediência de Passos Coelho, de Relvas, que manda na comunicação social, e nos outros ministros (incluindo os do CDS) que, na altura própria, vão intervir e protestar.

Mas não são só as Finanças e a Economia que estão em causa e empobrecem a esmagadora maioria dos portugueses. É o nosso Estado Social que tanto nos custou a criar no pós-25 de Abril, a dignidade dos trabalhadores que restam, o empobrecimento geral, que conduz à emigração forçada e ao desespero de milhões de desempregados, o aumento da criminalidade e do suicídio. São também o enfraquecimento sistemático dos valores da Democracia e a perda progressiva da liberdade de imprensa.

Sim, senhores jornalistas, os jornais não dizem tudo o que podiam, por prudência ou medo, e as rádios e as televisões também cada dia sofrem cortes e se sentem condicionadas. Vale-nos a esperança da decisão do Tribunal Constitucional, que espero devolva à procedência esse desastroso Orçamento, feito à pressa e pleno de inconstitucionalidades, como se sabe.

Se assim for, é bem possível que finalmente o Governo se demita - ou pelo menos alguns ministros mais sérios o façam. Não são necessárias eleições, que não fazem nenhum sentido e só atrasam. E que, enfim, o Presidente da República que não gosta de tomar responsabilidades assuma as suas. Para isso foi eleito.