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A Europa em ebulição

Mário Soares

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O Governo português deveria ser solidário com os Estados vítimas. Mas não o tem sido. Passos Coelho, quer ser o discípulo dileto de Merkel e só a ouve a ela. Um erro colossal!

Mário Soares

A Europa - ou melhor, a zona euro - começa a sentir que alguma coisa tem de mudar, para que a moeda única possa manter-se forte e a União Europeia (UE) não entre em desagregação. A opinião europeia - talvez com a exceção dos alemães e dos finlandeses - percebeu que a austeridade, imposta pelos mercados usurários, leva necessariamente ao desastre, senão mesmo, como disse Helmut Schmidt, ao abismo.

Enquanto os Estados-membros, vítimas dos mercados, foram a Grécia, a Irlanda e Portugal, a chanceler Merkel foi repetindo as Cimeiras, com pequenas promessas, quase sempre não cumpridas, avanços, recuos, muitas tergiversações e foi conseguindo deixar os Estados referidos ir de mal a pior. De 2011 a 2012, e agora de 2012 a 2013. Mas algo mudou com a eleição de François Hollande para Presidente da República de França, e, sobretudo, quando a crise financeira afetou a Espanha e a Itália, duas grandes economias. Com isso a crise transformou-se em europeia, mesmo que os Estados vítimas não sejam da zona euro, como é o caso do Reino Unido. Tudo mexe e as perspetivas são sombrias.

A França, que os mercados usurários querem que seja a próxima vítima, dificilmente deixará de o ser, mas compreendeu que sem crescimento - e menos desemprego - não haverá consolidação financeira possível. É preciso - e urgente - renegociar a austeridade, reduzindo os juros escandalosos que as troikas exigem, onde estão. A Espanha e a Itália têm procurado fazer isso sem troikas, apesar das dificuldades com que têm deparado por parte da chanceler Merkel, apoiada pelos finlandeses ultraconservadores. O Governo português deveria ser solidário com os Estados vítimas. Mas não o tem sido. Passos Coelho, quer ser o discípulo dileto de Merkel e, no quadro europeu, só a ouve a ela. Um erro colossal!

 

Sempre me chocou ouvir Passos Coelho dizer, repetidamente, "nós não somos a Grécia". Claro que somos e devemos ser solidários. Com a Grécia, com a Irlanda, a Espanha e a Itália. Porque somos contra os especuladores que estão a destruir os nossos Estados Sociais, os valores éticos e democráticos da UE - em especial, o da solidariedade - e as instituições europeias, Comissão Europeia e Banco Central  Europeu que, por medo da senhora Merkel, não se atrevem a dizer o que sentem e têm estado a paralisar um caminho que nos livre da crise.

Passos Coelho e Mariano Rajoy são correligionários e membros do mesmo Partido Popular. Mas Passos Coelho, apesar disso, não tem sido solidário - nem sequer tem falado, que se saiba, com o seu homólogo Rajoy - porque ele tem sido contra os mercados usurários e contra as medidas retrógradas de austeridade que Passos tanto gosta. Ora as medidas de austeridade têm de acabar - ou serem muito cortadas, aí sim - para que possa haver crescimento económico e diminua o desemprego, de modo a vencer a crise. É isso que Passos Coelho, fanático do neoliberalismo, não quer compreender.

 

Espanha e Portugal são Estados irmãos, independentes, mas ambos ibéricos, que desde a morte dos ditadores se transformaram em democracias e, por isso, passaram a ter as melhores relações e aderiram, no mesmo dia, à então CEE. Em tempo de crise aguda, deviam ter-se aproximado, como era vantajoso para ambos que acontecesse. Ora, foi o contrário que sucedeu. Por causa do fanatismo ideológico de Passos Coelho e para agradar à senhora Merkel, que por seu lado só pensa nas eleições que não quer perder. Não é aceitável!

Esquecem que, no próximo dia 6, Barack Obama, para benefício da América, da Europa e do Mundo, vai ganhar as eleições. E o vento de esperança que daí vai soprar dará à Europa progressista um novo impulso. Não tenho dúvidas.