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Que PS para que Governo?

José Carlos de Vasconcelos

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Seguro e Costa têm o estrito dever de celebrar uma espécie de pacto de 'não agressão' interna e de colaboração pós-Congresso

José Carlos de Vasconcelos

Não cabe agora aqui analisar os aspetos positivos e negativos, as forças e as fragilidades da liderança de António José Seguro. E não sei se alguma vez, em circunstâncias ideais, Seguro ganharia uma eleição que o fizesse primeiro-ministro. Sei que, salvo qualquer "milagre", o atual primeiro-ministro e o PSD perderão a próxima eleição. E, assim, salvo qualquer nova, inesperada e, neste momento, imprevisível realidade política, sabe-se que o líder do PS será o próximo chefe de Governo. Mesmo que para a generalidade dos cidadãos possa aparecer mais como simples alternância, numa rotineira rotatividade, do que como autêntica alternativa.

É neste contexto que surge a muito provável, quase inevitável, candidatura de António Costa a secretário-geral, no próximo Congresso do PS, a realizar, certamente, já na primavera. Sem entrar também na análise do que conduziu a esta situação, sublinho seis pontos:

 

1) Julgo fora de dúvida que, por várias razões, mormente a sua ação nos dois ministérios de que foi titular (Justiça e Administração Interna) e, sobretudo, como presidente da Câmara de Lisboa, a imensa maioria dos cidadãos considera Costa mais preparado e apto do que Seguro para vir a chefiar o Governo;

2) Assim, em próximas eleições legislativas, a posição do PS liderado por Costa será mais favorável do que se liderado por Seguro, não obstante este também poder ganhar as eleições;

3) O facto de Costa eventualmente se tornar líder do PS não impede de modo nenhum que seja, como deve ser, de novo candidato à (e presidente da) Câmara de Lisboa: basta recordar que há décadas o primeiro-ministro é o líder do partido mais votado;

4) E o facto de Costa ser presidente da Câmara em nada o impede de se apresentar a sufrágio para ser chefe de Governo - o que deve é, com alguns prejuízos inerentes (mas que não serão de molde, creio eu, a fazê-lo perder a eleição), avisar os lisboetas dessa possibilidade, e ter um n.º 2 com um peso e um perfil adequados a vir a assumir a presidência;

5) Na eventual disputa pela liderança do PS é bem possível que Seguro ganhe, o que não pode impedir a candidatura de Costa à 

Câmara de Lisboa, nem me parece que a enfraqueça de forma significativa;

6) Aliás, nas atuais circunstâncias, em que o combate ao Governo Passos-Gaspar-Relvas é natural e obrigatoriamente prioritário para o PS, Seguro e Costa têm o estrito dever de celebrar uma espécie de pacto de "não agressão" na campanha interna e de colaboração pós-Congresso - que, dentro do pluralismo e para lá de todas as divergências, assegure no essencial a unidade do partido.

 7) À margem, saliento que de tudo que deixei dito ressalta um dos defeitos graves, ou absurdos, do nosso - e não só do nosso -  sistema  político: quando uns milhares de militantes do PS, muito capazes ou meros coladores de cartazes, estiverem a eleger, com base em critérios e/ou interesses sobretudo partidários, o seu secretário-geral, estarão ao mesmo tempo a "escolher" o próximo primeiro-ministro, que terá de ser eleito por milhões de portugueses e o deveria ser com base em critérios e interesses nacionais.

 

O Governo desistiu por agora da (ou adiou a) privatização ou "concessão" de um canal da RTP. As circunstâncias a isso obrigaram, a dupla Relvas/Borges não conseguiu abater como e quando queria a televisão pública, sobretudo dada a oposição do CDS; em compensação, porém, o ainda (ainda!) ministro Relvas vai dirigir a sua "reestruturação". Mas para esta gente, que sabe é de negócios e mesmo desses só de alguns, reestruturar quer dizer apenas ou antes de tudo, como aliás não escondeu, despedir. Despedir, no caso, centenas de trabalhadores, para o que serão alocados 42 milhões de euros! E com a empresa assim "limpa" será, de facto, muito mais atrativa para qualquer negócio de privatização que o dito ainda ministro não desiste de fazer e anunciou para mais tarde.

Como é possível? Enquanto isto e outras coisas se mantêm ou agravam, passará pela cabeça do primeiro-ministro que é por Portugal ter voltado aos mercados, em condições e graças a fatores bem conhecidos e de que já muitos falaram (razão por que me dispenso de o fazer), que o Governo Coelho-Gaspar-Relvas conquistará a confiança dos portugueses?