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O direito ao futuro

José Carlos de Vasconcelos

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Governo, PS e Presidente têm de articular e concretizar ações para renegociar a dívida e diminuir os juros que pagamos à 'troika'. Como se impõe, é de justiça e do interesse comum

José Carlos de Vasconcelos

1. O Documento de Estratégia Orçamental e o discurso do primeiro-ministro mataram à nascença qualquer expectativa que algum incontinente otimista pudesse ter sobre a capacidade do Governo Passos Coelho/Vítor Gaspar, ou vice-versa, de reconhecer os profundos erros do caminho até agora seguido e suas consequências, mudando de rumo. O que lemos, vimos e ouvimos não foi qualquer reflexão crítica, e muito menos autocrítica, qualquer delinear de uma possível nova estratégia, qualquer entreabrir de uma janela de esperança. Não: uma vez mais, foi mais do mesmo que nos dois últimos anos nos trouxe, de mal a pior, até onde estamos.  

Isto quando as vozes mais autorizadas, não vinculadas ou vendidas a quaisquer dogmas ou interesses obscuros, vozes de múltiplos quadrantes, sublinham que só há saída para a atual situação privilegiando a economia face a uma cega política de austeridade, fatal para os países e os povos, mormente se excessiva e injusta como a praticada pelo Governo português.

Quando a dupla Coelho/Gaspar persiste na via única que nos tem conduzido para o abismo, a reação de quem sofre os efeitos dessa política suicidária, de quem ama o seu país e pretende pensá-lo com um futuro que não se esgota nem se confunde com ir aos "mercados" e cumprir as ordens dos credores - a reação pode assumir formas diferentes, de cidadão para cidadão, mas o seu sentido fundamental é o que o filósofo José Gil lhe dá no seu magnífico ensaio da p. 30 desta edição: estamos perante uma forma de progressiva destruição material e imaterial da nossa pátria. E Portugal tem direito ao futuro.        

2. Perante tal estado de coisas, o discurso de Cavaco Silva a 25 de Abril foi mais um desastre: aumentou o desprestígio do Presidente, colando-o ao Governo, reduziu a réstia de esperança que nele ainda muitos quereriam, embora fosse difícil, depositar, reduzindo do mesmo passo a sua margem de manobra e intervenção. Também esta infeliz circunstância contribuiu para dar mais importância e peso a Paulo Portas e ao CDS. Que já vinham fazendo um habilidoso jogo de cintura, em simultâneo no Governo, corresponsáveis pela sua política, e dando ou querendo dar a ideia de se oporem às (ou evitarem) suas medidas mais gravosas. Essa tática culminou agora com a comunicação de Portas, ministro de Estado, 48 horas depois da intervenção do chefe de Governo, facto tão insólito como revelador da situação na coligação e no País. Uma comunicação muito bem estruturada e construída, em particular atendendo aos objetivos visados (e conseguidos), que mostra a acentuada diferença de talento político e retórico em relação a Coelho.

3. Tratou-se de uma comunicação convincente ao ouvido, porém, com alguns pés de barro, não resistindo a uma análise mais consistente. Só como exemplo: então com as medidas tomadas (e não tomadas) pelo Governo até agora, incluindo os enormes sacrifícios impostos aos mais fracos, a que os mais fortes são poupados ou de que escapam, nunca foi ultrapassada a fronteira da democracia-cristã e da doutrina social da Igreja?... Seja como for, sublinho a referência a uma fronteira, atendendo à ideologia de que um partido se reclama, para lembrar que o PSD até se continua a chamar "social-democrata"... Mas, atendendo ao que pratica, trata-se hoje de uma espécie de pseudónimo. O que me admira é que os sociais-democratas que haja no partido estejam, salvo raras exceções, tão silenciosos e, assim, coniventes.

4. Ficamos quase sempre pelo imediato, e superficial, quando importa ir mais fundo, ao que está na raiz da situação que vivemos (a propósito, aconselha-se o filme O Capital, de Costa Gravas, o  realizador de Z e de outros filmes famosos). Aliás, muita coisa hoje já não é tanto do domínio da ideologia quanto da moral, da decência, da humanidade. Entretanto, há um consenso possível, que é o mais necessário: Governo, PS e Presidente têm de articular e concretizar ações para renegociar a dívida e diminuir os juros que pagamos à troika. Como se impõe, tanto a Portugal como à UE, ao BCE e ao FMI; e, mais, como é de justiça e do interesse comum. O Governo tem tremendas responsabilidades nesta área, ao dificultar, se não impedir, essa renegociação. Não podemos continuar assim.