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Ligado à máquina...

José Carlos de Vasconcelos

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O Governo teve de recuar na TSU. Sob pena de ocorrer uma explosão social e uma implosão do Executivo

José Carlos de Vasconcelos

1. O Governo recuou na TSU, como inevitável. Sob pena de ocorrer uma autêntica explosão social, que as multitudinárias manifs de 15 de setembro mais do que indiciaram, e uma implosão do próprio Executivo. As alterações na TSU que Pedro Passos Coelho (PPC) anunciou, além de iníquas, imorais, incompetentes - eram um aborto. Abortar era, pois, o seu destino natural... De qualquer forma, assinale-se que o primeiro-ministro fez o que, por todas as razões, tinha de ser feito. Enquanto, por exemplo, a um nível e numa área muito diferentes, continua a não demitir Miguel Relvas (ou a levá-lo a demitir-se).

2. O pior é que as mentes que pariram tamanha "coisa" nos continuam e continuarão a governar. A "coisa", aliás, situou-se numa certa linha de ação, opções e medidas, espécie de caricatura a traço grosso dessa linha, de sua ampliação violenta. Assim, tendo sido positivo o recuo na TSU, o que se impõe, mais, é uma mudança de políticas e de rumo, pois o atual não só não levou às metas que o Governo garantiu seriam atingidas como está a destruir o tecido social e muito do tecido económico. Persistir nele, é um suicídio.

3. Uma das razões que o primeiro-ministro tem invocado para fundamentar uma alegada justeza da ação do Governo, são os elogios da sr.ª Merkl. Ora, além de ser difícil à chanceler dizer outra coisa sobre quem tão obedientemente a segue, e chega a ultrapassar na ânsia de seguir, PPC esquece que ela ainda elogiou mais José Sócrates - e lamentou que o PSD não tivesse viabilizado o PEC IV. O PSD, porém, inviabilizou-o, sobretudo porque impunha demasiados sacrifícios aos portugueses. O que Passos e o PSD prometeram, garantiram, nessa altura e nas eleições, foi nesse e noutros domínios o contrário  do que, poucas semanas depois, começaram (e continuam) a fazer, na mais vasta e rápida violação de promessas e compromissos de que tenho memória na democracia portuguesa. Mas, ao menos, com bons resultados? Com os resultados que estão à vista...

4. Por tudo isto, e muito mais (de que o difícil relacionamento entre o PSD e o CDS é simples consequência, e a criação de um Conselho de Coordenação simples cosmética), o atual Governo não tem credibilidade, nem a confiança da imensa maioria dos portugueses, que com a questão da TSU até lhe perderam o respeito e ficaram indignados. Assim, quando mais precisávamos de um Governo mobilizador, em que o povo acreditasse e lhe abrisse uma janela de esperança, temos um Governo fraco, frágil, com a marca da incompetência e da injustiça. Ou seja, politicamente moribundo: um Governo "ligado à máquina" *.

5. Que por isso deve cair, fazendo-se novas eleições? Reconheço que, em coerência formal com o que escrevi, a resposta só poderia ser "sim". Mas... não, ou ainda "não". Por força da atual situação financeira, dos compromissos externos, da necessidade de tentar preservar a estabilidade política. O Governo vai, pois, para já, manter-se. No entanto, para a breve prazo não chegarmos a uma rutura, tem mesmo de mudar de rumo. De saber dialogar, de atender as propostas fora da sua "cartilha"  (como as agora apresentadas pela CGTP no Conselho de Concertação Social), de prosseguir novas políticas, antirrecessivas e de crescimento, de não penalizar sempre os trabalhadores e querer destruir o Estado social, etc. Se assim não for, teremos também enfrentamentos graves como na Grécia e em Espanha, que o civismo dos cidadãos e a moderação dos sindicatos poderão evitar

6. Como sinal de mudança de rumo é urgente uma remodelação ministerial. Pelo menos, claro, a de Relvas (mantê-lo seria uma verdadeira provocação) e a dos ministros  das áreas das Finanças e Economia, entre outras. Ao mesmo tempo, será aconselhável alterar a estrutura do Governo, acabando com a demagógica concentração de múltiplos setores em alguns ministérios - e "restaurando" o da Cultura. Àquela luz, Vítor Gaspar é o primeiro e principal remodelável. Como autorremodelados têm de ser o pensamento e a prática de Passos Coelho... Sem isto, nada feito.

* No futuro, seria interessante os primeiros-ministros, no início do mandato fazerem um "testamento vital"...