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Governar 'post-mortem'?...

José Carlos de Vasconcelos

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Pelas mesmas razões que preferiria não fossem necessárias, impõe-se haver eleições antecipadas, coincidindo com as autárquicas: a situação, apesar de tudo, pode melhorar

José Carlos de Vasconcelos

1. A posse como ministra (das Finanças) de um Governo que já não existe, dada por um Presidente da República (PR) cujo principal objetivo tem sido a manutenção desse Governo, por isso também tendendo a inexistir - eis o triste espetáculo, via televisão, perante o qual começo a escrever estas linhas, às 17 horas do terça-feira, 2. Em  décadas de ofício, nunca me encontrei em posição tão insólita, num país em situação tão dramática.

À demissão/bomba de Vítor Gaspar, sucedeu-se, ainda mais potente, a de Paulo Portas. Com a primeira, o Governo, já moribundo, ficou ligado à máquina; com a segunda, a máquina foi desligada, consumou-se a morte. Falta o "médico", que parece ter abandonado a clínica, o PR, passar a certidão de óbito; e, com tudo consumado à sua revelia (às 15 horas ainda nem sabia da demissão de Portas), proceder em conformidade.

2. Pedro Passos Coelho (PPC) vai falar às 20 horas. O normal seria esperar pelo que vai dizer. Mas não: continuo. Até porque me quero referir à carta de demissão de Vítor Gaspar. Que, além do mais, representa um digno assumir de responsabilidades por erros e fracassos, com uma consequente perda de credibilidade que entendeu impedi-lo de continuar no Governo. Ora, sendo as responsabilidades de PPC, como seu chefe, ainda maiores do que as de Gaspar, e a credibilidade ainda menor, por maioria de razão se devia demitir...

Acresce que, para substituir Gaspar, PPC escolheu a sua mais direta colaboradora, num sinal inequívoco de querer prosseguir a mesma suicidária política. Colaboradora cuja demissão como secretária de Estado já era pedida por causa da sua ligação aos famosos swaps! E escolha, para cúmulo, feita à revelia do CDS, seu parceiro de coligação. O que, tudo, levou o líder do CDS, Paulo Portas, novo n.° 2 do Governo, a pedir também a demissão.

3. Neste quadro, política e democraticamente insustentável, o que é lógico, natural, PPC anunciar ao País? Que vai demitir-se, por - mesmo imputando as culpas aos outros - não ter condições para governar; ou, no mínimo, que vai apresentar uma moção de confiança. Ou PPC, com as suas já proverbiais teimosia e cegueira, que consegue o quase milagre de ter contra si, em simultâneo, todas as confederações patronais e sindicais, irá dizer o contrário?

4. O primeiro-ministro acabou de falar. Não se demite, não aceitou a demissão de Portas (que já disse ser essa decisão irrevogável), vai manter-se no Governo. De qualquer maneira. Antes de mais, tentando que o CDS, que este fim de semana tem o Congresso, nele continue. Ou que não inviabilize a sua continuação. Além disso, o paleio habitual, blá, blá, blá, blá: após os outros géneros, a rábula! Veremos se o CDS nela colabora, contribuindo para manter o Governo, dentro ou fora dele, neste caso assegurando, por exemplo, que deixará passar o Orçamento (mas como, dada até a razão invocada pelo seu líder para se demitir?). Ficaria muito mal na fotografia, mas é uma hipótese.

Que depende também, ainda e sempre, de Cavaco Silva, sobre o qual é cada vez mais difícil, se não penoso, dizer alguma coisa. Há muitos cenários possíveis, e um deles poderá conduzir a grandes mudanças nos atuais partidos de Governo. Sou dos que preferiria não houvesse necessidade de eleições antecipadas no período da chamada ajuda externa. Uma coisa, porém, são os nossos desejos, outra a realidade - e esta impõe-nas, pelas mesmas razões que eu desejaria não fossem necessárias.

5. Assim, seja pela assumida rutura da coligação PSD/CDS, que nenhuma operação de cosmética pode esconder, seja pela decisão, enfim, do Presidente, dado ser de clareza meridiana estar em causa o regular funcionamento das instituições democráticas, deve haver eleições legislativas, coincidindo com as autárquicas. Na tão difícil e até dramática situação que vive, e também para a ultrapassar, o País não pode ter um Governo post mortem. E se não está à vista alternativa entusiasmante, mesmo assim creio que a situação, mantendo-se dificílima, poderá melhorar. Desde logo porque corresponderá a uma legitimidade renovada, conferindo maior credibilidade ao Executivo, e decerto iniciando um caminho com mais economia e menos "austeridade", com mais diálogo, paz social e procura de consensos.