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Com que 'voz', em que 'tempo'?

José Carlos de Vasconcelos

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Fica a ideia de que Portugal deixou de ter voz própria e de que o duo Coelho/Gaspar põe a ideologia e obsessão à frente dos interesses dos portugueses

José Carlos de Vasconcelos

1. Se um país vive numa situação dramática, de pobreza e desemprego cada vez mais generalizados, com uma média de 25 empresas a falirem todos os dias, uma economia em recessão, a perspetiva de tudo piorar ainda, a generalidade das pessoas num progressivo desespero, sem ver "saída" para as suas vidas - faz algum sentido não aproveitar algo de favorável, concedido a outro país que ainda esteja pior, para não se "confundir" com ele? Não só não faz nenhum sentido como é chocante, em especial para os que mais sofrem tal dramática situação.

Ora, é esta agora a posição do Governo quanto à aplicação a Portugal, com base no princípio da igualdade, de algumas melhores condições dadas à Grécia para o pagamento das suas dívidas. Agora, sublinho, porque o ministro Vítor Gaspar disse, primeiro, de forma explícita e claríssima - tal como o fez o presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker - que Portugal beneficiaria dessas condições ou medidas; e poucos dias depois, veio (vieram) dizer exatamente o contrário. Com justificações absurdas e coincidindo com o "conselho" nesse sentido dado pelos ministros alemão e francês das Finanças...

2. Acresce que, teorizando o indefensável e mostrando que para si haverá coisas mais importantes ou urgentes do que minorar de imediato o sofrimento do povo português e priorizar o que possa contribuir para inverter o atual ciclo, Passos Coelho veio dizer que Portugal não quer tratamento igual ao da Grécia. Entretanto, vai deixando implícito que, a seu tempo e se for caso disso, o Governo o solicitará. Mas sugerindo sempre, como Gaspar, que nem será necessário fazê-lo, pois Portugal está no bom caminho, já começou a regressar ao mercado, blá, blá (alguém disse mesmo que, formidável!, os especuladores já começaram a ganhar dinheiro com a dívida portuguesa...).  

A seu tempo e se for caso disso? Mas então a situação do País e das pessoas ainda não é suficientemente grave para se pedir a diminuição dos juros e o alargamento dos prazos de pagamento? E o duo Coelho/Gaspar entende que ainda não deu provas bastantes de ultracumprir o que a troika e a senhora Merkel ordenam, para o fazer? Uma vez mais a ideia que fica é a de que Portugal deixou de ter voz própria e o dito duo põe a sua ideologia e a sua obsessão em provar as suas teorias à frente dos problemas reais e dos interesses concretos dos portugueses.

3. O Congresso deste fim de semana mostrou, para o bem e para o mal, um PCP igual a si próprio. Agora até, pelo menos aparentemente, sem clivagens internas, conflitos, "dissidências". Mas também, apesar dos esforços de renovação, sem fogo - pois tais esforços verificam-se em termos etários, não no debate ideológico e de ideias. Sem fogo, e com poucas, se algumas, "estrelas" brilhando no seu firmamento: a única que continua a refulgir é Álvaro Cunhal, justamente recordado no Congresso. Como o próprio Cunhal gostaria de salientar, é o primado do "coletivo".

Não é, porém, apenas no PCP que faltam o debate ideológico e as "estrelas", embora nos conclaves comunistas tudo seja em geral mais previsível - também porque mais trabalhado, com convicção e  militância. De resto, o PCP, que sempre foi um partido mais poderoso e influente do que refletem os seus resultados eleitorais, está num bom momento, e decerto virá a melhorar, de forma significativa, esses resultados. Talvez ao contrário do BE, que também teve o seu Congresso. Comparando os dois congressos vê-se bem a diferença de força e da base social de apoio. E a saída da liderança do BE de Francisco Louçã, o mais dotado e bem preparado dos líderes partidários, só pode ser negativa para os bloquistas.

O problema é que, em geral, o PCP está "melhor" quando o País está pior, como acontece agora... E a "alternativa de esquerda" que defende, neste caso em larga consonância com o BE, não obstante algumas mútuas críticas implícitas, apenas é possível com o PS. Só que, na ótica de comunistas e bloquistas, passa necessariamente por o PS fazer a política de esquerda que defende(m) e não a que tem sido a sua (do PS), que consideram de direita. Como sair daqui, se há saída? Voltarei ao tema.