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Coelho e Gaspar, nóbeis da Teimosia

José Carlos de Vasconcelos

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José Carlos de Vasconcelos

Lêm-se as 57 páginas do Documento de Estratégia Orçamental, ouve-se o primeiro-ministro ou o ministro das Finaças, e vê-se que nada mudou - ou tudo ameaça ser ainda pior!  

Se há um largo consenso nacional neste momento em que o Governo enche a boca com a palavra "consenso", depois de tanto ter feito e continuar a fazer para o destruir ou tornar impossível, é sobre o desastre que foi e é a política desse Governo - e por isso o desastre que ele próprio, Governo, foi e é. Já passamos muitas épocas difíceis, duras, de governos impopulares e a sofrer forte contestação, por uma razão ou outra; mas nunca, depois do 25 de Abril, houve tamanho acordo quando ao desacordo com um Executivo, sem sombra de dúvida criticado, condenado e/ou detestado pela imensa maioria dos portugueses.

O que se corporiza(va) sobretudo através das três "figuras" que mais do que todas o simboliza(va)m e eram tidas pelas mais poderosas (Passos Coelho, Vitor Gaspar e Miguel Relvas), entretanto reduzidas a duas pela saída, embora muitíssimo tardia, de Relvas. Mas quando cada vez mais cidadãos se interrogam sobre como poderá o ministro de Estado e líder do segundo partido da coligação, Paulo Portas, ao mesmo tempo estar no Governo, viabilizá-lo, sustentá-lo, e de certa forma colocar-se de fora, dar para o exterior a ideia de que discorda do essencial, do cerne da sua orientação e acção.

Ou seja: que discorda da ultraausteridade, muito para lá do que consta do memorando de entendimento com a troika, e da simultânea ausência de medidas para o crescimento económico, que são o que mais dramaticamente distingue este Governo. E, de par com a convergente crise europeia, leva a que, mau grado os enormes sacrifícios já feitos pelas pessoas, o desemprego, a recessão, a tremenda degradação das condições de vida e a progressiva destruição do Estado Social, que parece ser um objetivo ideológico da dupla Coelho-Gaspar, sejam o que se sabe.

Vem isto a propósito de o Governo ter ensaiado uma alteração de discurso, ou pelo menos "semântica", ao exatamente começar a falar (falar...) de consenso, e de uma nova política económica, com ênfase no desenvolvimento e em medidas antirecessivas, tendo para o efeito o ministro Álvaro Santos Pereira anunciado algumas propostas. Só que estávamos nisto (ou neste paleio?...) e ao mesmo tempo mantinham-se os sinais em sentido contrário, que culminaram com a apresentação do Documento de Estratégia Orçamental. Lêm-se as suas 57 páginas, ouve-se o primeiro-ministro ou o ministro das Finaças, e vê-se que nada mudou - ou tudo ameaça ser ainda pior!

Bem pode a realidade constantemente desmentir as afirmações e previsões do Governo, ou daquela famigerada dupla por ele; bem pode (quase?) toda a gente que sabe lançar alertas sobre o abismo para o qual as atuais políticas nos encaminham e de que estamos cada vez mais próximos (alertas, incluive, de quem, além de saber, tem mais experiência nestas matérias, no próprio campo da maioria, como a ex-ministra das Finanças e líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, a mais ovacionada nos seus congressos...); bem podem prémios Nobel da Economia, como Krugman e, agora mesmo no Estoril, Pissarides, que o venceu em 2010, considerar desastrosas aquelas políticas governamentais, etc., etc. - tudo, repito, continua na mesma.

Tudo continua na mesma e Passos Coelho e Vitor Gaspar cada vez mais aparecem aos portugueses como os representantes da troika em Portugal. O que é outra, mas fundamental, conversa. Mas já agora, que falei de dois prémios Nobel da Economia, Coelho ou Gaspar a ganharem algum Nobel seria, na melhor das hipóteses, o da Teimosia...