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Aviso e sinal

José Carlos de Vasconcelos

O resultado das europeias representa um aviso e um sinal de mudança que poderá ou não confirmar-se nas legislativas

O PS perdeu as europeias, superando as piores expectativas, e o PSD ganhou-as, superando as melhores. O PS perdeu - e para todos. Mas se todos, de alguma forma, ganharam, há dois partidos cujos resultados são particularmente relevantes e terão maiores consequências:

Primeiro, o PSD, por: a) ter sido, em absoluto, o vencedor, por uma margem acima quase do imaginável, mesmo à luz das sondagens e projecções, conquistando, pela primeira vez, nos últimos quatro anos, o "estatuto" de partido com hipótese de ser o mais votado, e por isso alternativa de Governo, nas legislativas de Setembro; b) tornar indiscutível e consolidar uma liderança periclitante e internamente contestada, sem prejuízo das naturais tréguas neste período eleitoral - sendo assim Manuela Ferreira Leite a principal vencedora deste sufrágio, até na escolha do cabeça de lista, Paulo Rangel, que foi uma aposta inteiramente ganha;

Segundo, o BE, por: a) ter sido o partido que mais cresceu, alcançando o melhor resultado de sempre - o único nestas condições -, mais do que duplicando a sua percentagem de votos em relação às anteriores europeias e passando a ter, pelo menos, dois eurodeputados em vez de um só (no momento em que escrevo ainda falta apurar um deputado); b) ser já a terceira maior força política, embora ombro a ombro com o PCP, capitalizando o óbvio descontentamento dos portugueses com os políticos e os partidos, de que procura ou aparenta ser, em certos aspectos, diferente, o que lhe continuará a dar dividendos.

Quanto ao PCP, que tem resistido a todas as agonias ou mortes anunciadas, ganhou por ter aumentado o número de votos e a percentagem em relação a 2004, mantendo dois deputados, apesar da diminuição global da representação portuguesa no Parlamento Europeu.

Já o CDS só ganhou na comparação entre o resultado que conseguiu e os valores mínimos que as sondagens lhe davam (não é possível comparar os resultados de agora com os de 2004, pois o ex-PP concorreu então coligado com o PSD), assim continuando a assegurar um certo lugar no tradicional xadrez da política à portuguesa; mas, ao mesmo tempo, passou a ser o quinto e último entre os partidos com representação parlamentar, sendo um pouco ridículo que Paulo Portas, uma vez mais, logo se tenha posto em bicos de pés e anunciado a apresentação de uma moção de censura ao Governo!

O PS e José Sócrates perderam em toda a linha e em todas as frentes. E se a prestação e falta de apelo eleitoral de Vital Moreira pode ter contribuído para isso, o que fundamentalmente conduziu ao quase desastroso resultado dos socialistas foi o voto de protesto e a enorme abstenção, que não significou só alheamento, desinteresse, mas também protesto.

As europeias e as legislativas são muitíssimo diferentes. O simples facto de, nas segundas, a abstenção dever reduzir-se a cerca de metade e haver um confronto directo entre Sócrates e Ferreira Leite como "candidatos" a primeiro-ministro - altera tudo. De tal maneira que se o PSD tivesse ganho as eleições de domingo só tangencialmente, eu diria que o PS continuava a ser o muito provável vencedor das legislativas, com maioria relativa. Assim, com uma diferença de cinco pontos, fica tudo em aberto, deixando de haver um favorito. A menos, talvez, que a direcção socialista seja (mas será?....) capaz, nestes três meses, de mudar muita coisa, aprendendo com estas eleições a lição que, ao longo do tempo, se mostrou incapaz de aprender com a própria realidade.

Enfim, além do que em si mesmo é, o resultado das europeias representa um aviso e um sinal de mudança que poderá ou não confirmar-se nas legislativas. Deixando em aberto, à esquerda e à direita, novas hipóteses de cenários para uma possível ou impossível governabilidade. Cenários menos nítidos e mais complexos no centro esquerda/esquerda, que em termos teóricos, numéricos, continua a ter uma confortável maioria, que aparentemente não lhe serve de nada...