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As coisas são o que são...

José Carlos de Vasconcelos

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Apaziguar as tensões com Angola, como desejável, nunca poderá ser feito com prejuízo da dignidade nacional e preterição de normas fundamentais do Estado de Direito

José Carlos de Vasconcelos

1. Não vou repetir evidências sobre os resultados das autárquicas. De qualquer forma, faço o meu resumo-leitura. O PS ganhou, sem esmagar. O PSD perdeu, sem ser esmagado. O PCP foi, em termos relativos, quem mais se reforçou, só ele tendo aumentado a votação - e sendo, neste sentido, o único "vencedor". O BE ainda passou a ser localmente mais fraco, o que julgo refletir um seu progressivo declínio. O CDS passou a ter não uma mas cinco pequenas câmaras; no entanto, coligado com o PSD, foi derrotado nas maiores - admitindo-se tenha ficado satisfeito, sobretudo pela comparação com o PSD, mas nunca em termos de justificar a "festa" de Paulo Portas. A realidade "independentes", na sua diversidade, impôs-se com um enorme crescimento, que se ampliará em futuros atos eleitorais, a menos que haja profundas alterações nos partidos.

2. Feita esta síntese, vale a pena sublinhar meia dúzia de aspetos específicos. Assim:

a) A derrota do PSD, e a vitória do PS, embora expressivas, e pelas suas dimensões com significado nacional, foram menores que seriam se não houvesse nas autárquicas um forte peso das figuras dos candidatos; aliás, certa aparente contradição de tendências, teve em geral a ver com erros de casting relacionados com a partidarite aguda dominante;

b) No PSD, avulta a tremenda, humilhante, derrota de Luís Filipe Menezes no Porto (e em Gaia), apesar de todos os recursos utilizados e de não olhar a meios; derrota também da sua "linha" no partido, de Marco António e outros, bem como de Passos Coelho - o que não poderá deixar de ter consequências dentro do PSD;

c) Sendo outro grande derrotado Alberto João Jardim, com a autêntica reviravolta na Madeira, onde se destaca a inovadora coligação vencedora no Funchal (PS, BE e outros), que pode ser um teste, pela positiva ou negativa, para futuras experiências similares;

d) Grande vencedor foi António Costa, pelo trabalho feito, pela sua óbvia qualidade, mas também porque em Lisboa soube dinamizar um movimento, construir uma candidatura, a que chamou PS Mais, que de largo ultrapassou os cânones e limites partidários;

e) Se a abstenção continua a subir, e os votos brancos e nulos ainda mais, o que seria sem as listas independentes..., muitas das quais obtiveram excelentes resultados. Principal destaque, claro (entre os independentes e das próprias eleições), para o Porto e Rui Moreira: um notável exemplo de uma candidatura não partidária e não ideológica, que soube identificar-se com uma cidade cheia de caráter e merecer a confiança dos seus cidadãos;

f) Assim, impõe-se que, no Porto, o PS esteja à altura das circunstâncias, fazendo com Moreira um acordo que dê estabilidade e solidez à sua governação autárquica; como considero lastimável, reflexo dos velhos vícios da politiquice e do centrão, e contrário à política que o PS proclama seguir em relação a Passos Coelho, celebrar um acordo com o PSD de Pedro Pinto para governar Sintra, alegando que não o pode fazer com o candidato (independente) que ficou em 2.° lugar porque, segundo Basílio Horta, ele "fez uma campanha contra os partidos"!... 

3. Tenho pena de o dizer, até porque conheço Rui Machete há muitos anos e pensei que a sua experiência e preparação poderiam dar um bom contributo para o Governo ser menos mau, mas os "casos" que já protagonizou tornam a sua posição nele ética e politicamente insustentável. Logo à partida, o cargo que ocupou na SLN, proprietária do BPN, o que eu desconhecia, aconselhava não assumisse funções governativas - como o aconselhava a impressionante lista de cargos em bancos e empresas, o que também diz muito sobre a permeabilidade entre o poder político e o económico.

Depois, além do resto, as suas falsas ou inverídicas declarações ao Parlamento, a que chamou "erros factuais". Por fim, o pedido de desculpas a Angola e as a vários títulos graves declarações sobre processos em curso. Admito que o ministro quisesse apenas, como desejável, apaziguar as tensões com Angola, mas isso nunca poderá ser feito com prejuízo da dignidade nacional e preterição de normas fundamentais do Estado de Direito. Acresce que acabo de o ver no Parlamento, onde as suas "explicações" não explicaram nada. E, na circunstância, a experiência e preparação de Machete não constituem atenuantes, mas agravantes. As coisas são o que são.