Visão

Siga-nos nas redes

Perfil

A convergência à esquerda

José Carlos de Vasconcelos

  • 333

A melhor forma de impossibilitar qualquer (necessária) convergência à esquerda é querer uma (impossível) unidade de esquerda

José Carlos de Vasconcelos

A melhor forma de impossibilitar qualquer (necessária) convergência à esquerda é querer uma (impossível) unidade de esquerda. E procurá-la com base num hipotético entendimento ou acordo geral entre partidos que da esquerda se reclamam. A dissensão começa logo a propósito do que é a, e quem é de, esquerda, começa em conceitos e princípios que têm a ver com antigas ou recentes querelas ideológicas e políticas. E acaba com a prevalência excessiva que os partidos sempre dão às suas posições e aos seus interesses nos resultados eleitorais, na partilha do poder e em tudo que lhes está associado. Tomar em conta esta realidade é um dos pressupostos fundamentais para ser possível aquela convergência. Que nunca foi tão indispensável - e porventura tão fácil, desde que haja um mínimo de vontade política e de bom senso.

Refiro-me ao momento que vivemos, com a desastrosa política do Governo da dupla Coelho/Gaspar, mais troikista do que a troika, mais direitista do que a direita assumida, com as dramáticas consequências que se conhecem para os portugueses e o País. Face a estas realidades, creio que, à partida, se impõe o seguinte:

1) Não ter como objetivo apenas (e não falar de) uma unidade, ou sequer convergência, de "esquerda", mas de uma convergência de "centro esquerda/esquerda". Não se trata apenas de uma questão semântica, de evitar aquelas polémicas, mas de alargar uma base social e política de apoio;

2) Aliás, na atual conjuntura, basta seguir, por exemplo, a orientação da doutrina social da Igreja, para poder subscrever uma plataforma contra o essencial da política deste Governo e a favor de uma nova política, muito diferente dela;

3) E só na base de uma certa plataforma, de uma carta de princípios, de "bases gerais", se pode chegar à convergência centro esquerda/esquerda. Não se pode visar repetir certas experiências históricas, como a do Programa Comum que, em 1981, levou Mitterrand à Presidência de França. Agora, importa ser menos ambicioso - o excesso de ambição, o radicalismo e o dogmatismo só podem conduzir ao fracasso - e ser mais realista, tendo em conta aquilo a que urge pôr cobro e a necessidade de resultados a curto prazo;

4) Ora, há múltiplos domínios em que existe praticamente unanimidade na "convergência". Quanto a, por exemplo: impedir mais privatizações e mais medidas tendentes a destruir o Estado Social, fazendo reverter logo que possível as já tomadas; pôr termo à atual política de "austeridade", aos ataques aos direitos dos trabalhadores, pensionistas e reformados; lançar uma nova política mais virada para a economia, o combate ao desemprego e às sempre crescentes injustiças e desigualdades sociais, etc.;

5) Nessa carta de princípios não poderá estar muito do que os "mais à esquerda" gostariam que estivesse. Mas isso é óbvio: se não o aceitam, não vale a pena sequer dizer que defendem alguma forma de convergência. Assim, é contraditório defendê-la - a convergência, atual e futura -, e à partida colocar como exigência a recusa pura e simples, absoluta, do "memorando de entendimento", quando o PS, então no Governo, o subscreveu: o que faz sentido, é legítimo, e indispensável é lutar pela sua revisão ou renegociação, desde logo quanto a juros e prazos;

6) Mas o PS, por sua vez, tem de ser claro na sua orientação e no seu compromisso, não só na convergência no imediato (como a que se verificou agora entre a CGTP e a UGT, a propósito da greve geral) como no futuro próximo, após as eleições, seja qual for o seu resultado e realizem-se elas quando se realizarem. Aliás, o que for ou não for a projetada nova Convenção para uma Nova Maioria, de que falarei noutra ocasião, será talvez decisivo para este efeito - em particular para a muito importante intervenção e influência que em tudo isto podem e devem ter os cidadãos não partidariamente "filiados";

7) Aqui chegado, perguntará o leitor: e então a iniciativa de Mário Soares que conseguiu reunir representantes do PS, do PCP, do BE, etc.? Foi meritória, mostrou a extraordinária vitalidade do eterno líder socialista, contribuiu decerto para facilitar um eventual diálogo. Não foi pouco - mas dela não se espere nem exija mais.