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Venha de lá o plano B

Áurea Sampaio

Mesmo quando a nossa vida é dominada pela necessidade de sabermos fazer bem as contas, este não é o tempo dos contabilistas. E muito menos dos banqueiros

Áurea Sampaio

É humilhante ver a Europa a pedinchar junto dos seus parceiros do G20 e a levar tampa e puxões de orelhas por mau comportamento. A Europa berço da democracia, até ainda há pouco admirada pela construção de um espaço único de civilização e prosperidade, a Europa sinónimo de liberdade e de pujança jaz, doente e isolada, no leito de um destino incerto. Até este frenesim inconsequente de cimeiras, de onde os líderes vão saindo com uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma, emana já o cheiro insuportável da putrefação. Por detrás da coreografia das aparências, com sorrisos, apertos de mãos e as inevitáveis photo opportunities, esconde-se a debilidade das lideranças. Por ali não se descortina pensamento político estruturado e muito menos sombra de causa ou ideal, o que é trágico quando o objetivo primordial da política deveriam ser as pessoas, o seu bem-estar e a sua felicidade. Pelo contrário, a esmagadora maioria dos poderosos que nos governam guia-se pela frieza dos números, como se a política fosse um pingue-pongue estatístico em que inflação, taxas de juro e cotações valessem por si e não pelo reflexo que têm no emprego, nas pensões ou na qualidade de vida das pessoas reais. 

Mesmo quando a nossa vida é dominada pela necessidade imperiosa de sabermos fazer bem as contas, este não é o tempo dos contabilistas. E muito menos dos banqueiros, pois é a governação da alta finança que tem mergulhado a Europa na instabilidade e na angústia. Se olharmos com atenção para o currículo da maior parte das figuras que decidem as nossas vidas a partir das chancelarias europeias, reconhecemos-lhes percursos quase miméticos, desde os bancos de escola. Pensam todos da mesma forma, frequentam os mesmos sítios, revezam-se nos cargos importantes. Por exemplo, Mario Draghi, o italiano que chegou agora à presidência do Banco Central Europeu (BCE), foi governador do Banco de Itália, ex-diretor executivo do Banco Mundial e diretor executivo da famosa Goldman Sachs, um dos bancos causadores da crise do subprime. Instituição financeira de onde, curiosamente, foi conselheiro Mario Monti, o ex-comissário europeu agora muito falado para substituir Berlusconi à frente do Governo italiano. Também António Borges, o português que dirige o Departamento Europeu do FMI, foi vice-presidente do conselho de administração da mesma Goldman Sachs. Lucas Papademus, o nome que poderá suceder a Papandreou como primeiro-ministro grego, tem, igualmente, experiência na banca. Além de governador do Banco da Grécia, foi vice-presidente do BCE, sendo visto como um homem da confiança do sistema financeiro europeu. Jean Claude Juncker, o conhecido presidente do chamado Eurogrupo, foi governador do Banco Mundial e presidiu ao FMI...

Esta gente e outra da mesma estirpe já provou que não serve. Precisamos de políticos, precisamos de ideias, de ideias protagonizadas por gente de coragem, capaz de resistir à cartilha de uma austeridade que não está a resolver os problemas, mas a agravá-los. É urgente ter um plano B e é fundamental estarmos o mais unidos possível, mesmo com todas nossas diferenças. Em tempos de guerra não se limpam armas, e nós estamos em guerra. Só quem entender isso ficará na História.