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Vale a pena remodelar?

Áurea Sampaio

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Passos Coelho só está interessado em ouvir os que pensam como ele

Áurea Sampaio

O Governo voltou a fazer asneira. Já negociou o novo pacote de austeridade lá fora, sem dar cavaco cá dentro, e preparava-se para só o anunciar ao País depois da reunião do Eurogrupo (composto pelos ministros das Finanças da Zona Euro) marcada para 8 de outubro. Porém, uma indiscrição de Durão Barroso revelando que as medidas já tinham sido aprovadas em Bruxelas, na semana passada, levantou um coro de indignação, obrigando à mudança de planos. À hora em que escrevo (tarde de terça-feira, 2), foi anunciado que Vítor Gaspar falaria no dia seguinte para revelar as medidas que substituem a TSU. Desta vez, já não é Passos Coelho a dar as más notícias. Sinal de que Gaspar é para queimar?

Seja como for, serão, certamente, apresentadas políticas gravíssimas que, em muitos casos, mudarão para sempre a vida de muitos cidadãos e de muitas empresas. Medidas expostas como factos consumados e não como propostas passíveis de negociação, alteração ou mesmo substituição. Sejamos condescendentes e admitamos a pressão a que Passos Coelho está sujeito quer pelo timing, quer pelos contornos preocupantes da conjuntura externa. Pois bem, ao invés de se esconder, estas condicionantes deveriam servir-lhe de elemento mobilizador para incluir toda a gente na busca de soluções e não como justificação para esta espécie de fuga para a frente, em que o chefe do Governo parece não estar interessado em ouvir seja quem for... a não ser os que pensam como ele. Esse caminho autista levou-o ao lugar político onde está agora: um governo em queda livre, um primeiro ministro desautorizado e um divórcio que se adivinha cheio de episódios violentos entre governantes e governados. A amostra já está na rua, quer em manifestações de centenas de milhares de pessoas, quer na presença de grupos hostis de indignados em cada lugar onde ministros ousem mostrar-se, quer nos números horripilantes das sondagens.

Os portugueses não confiam no Governo porque este falhou os objetivos e reformas e o Governo não confia nos portugueses por se achar injustiçado pela contestação generalizada das suas medidas. Passos Coelho e a sua equipa surgem cada vez mais acantonados na sua redoma de segurança, isolados da vida real e do que sentem e pensam as pessoas, enquanto os cidadãos não vislumbram sinais de esperança ao fundo do túnel. Enfim, "não há química" entre as duas partes, como diz o outro.  

No meio de tudo isto, até parece que a salvação da pátria está numa qualquer remodelação. Remodelar dá sempre conversa, títulos nos jornais, histórias de vida de quem entra, palpites sobre as escolhas, mas, neste caso, resolve muito pouco. Em primeiro lugar, porque Passos Coelho não tem grande campo de recrutamento. Lembramo-nos da dificuldade que teve para formar esta equipa, mais difícil será recrutar nomes de peso para um governo tão desacreditado. Depois, porque Passos não substitui Gaspar, Moedas, Relvas, Cristas, Santos Pereira e, de caminho, o seu conselheiro António Borges. Também não muda a sua política europeia, nem altera radicalmente a sua relação com os portugueses, transformando desconfiança e, até, ressentimento, em transparência e proximidade. É por isto que não vale a pena remodelar.