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Uma luta de morte

Áurea Sampaio

Na sua desnorteada tentativa de manter o sistema, a dupla Merkel Sarkozy, afundou a Europa

Áurea Sampaio

<#comment comment="[if gte mso 9]> Normal 0 21 false false false PT X-NONE X-NONE MicrosoftInternetExplorer4 <#comment comment="[if gte mso 9]> <#comment comment="[if gte mso 10]> Por toda a Europa as notícias não podiam ser mais assustadoras. Mais vorazes do que nunca, os mercados assaltam tudo e todos com a pressão a passar claramente das periferias para o centro. A Itália, que já ultrapassou a famosa fasquia dos 7% a partir dos quais Portugal e Grécia foram obrigados a pedir "ajuda" externa, teve de desmentir os rumores que davam como certa a preparação de um resgate de 600 mil milhões de euros. Em Espanha, também o recém-eleito Mariano Rajoy teve de contrariar uma informação segundo a qual ele próprio teria admitido, numa reunião privada, que a Espanha não passaria sem uma intervenção da troika. A Bélgica viu o seu rating reduzido pela Fitch, enquanto a Alemanha (e o resto da Europa) assistiu, incrédula, a um leilão mal sucedido da sua dívida - queria vender 6 mil milhões de euros em obrigações, mas a procura não foi além dos 60 por cento. Aliás, a semana passada, além dos suspeitos do costume, grande parte dos países do euro foram absolutamente fustigados pelos mercados com a turbulência a atingir praças até há pouco tidas por inexpugnáveis como a Áustria e a Finlândia. Agora, há uma certa expectativa em relação ao dia em que a França perde o seu triplo A, um filme de terror que Sarkozy quer a todo o custo evitar, a cinco meses de umas eleições presidenciais decisivas para a sua continuação no Eliseu. E a coisa não está fácil, segundo as sondagens.

Por cá, a Fitch também já nos colocou ao nível do lixo, os nossos bancos têm a sua notação em baixa e a OCDE divulgou, no início da semana, uma previsão que aponta para um recuo de 3,2% da economia portuguesa, em 2012. Se pensarmos que, para 2011, a mesma previsão indica uma quebra de 1,6%, é fácil ter-se uma ideia da recessão que vamos enfrentar no próximo ano. Isto para falarmos dos números do desemprego, que aquela organização estima possa vir a atingir 13,8% e da incerteza sobre o comportamento das exportações por via da crise na Zona Euro, principal destino dos nossos produtos. Se dúvidas houvesse, tudo isto é a prova inquestionável de que não é por a troika, no seu infinito cinismo, nos declarar bem comportados, ou por termos um dos chefes de Governo mais alinhados com as teses da chanceler alemã que nos vamos salvar do abismo em que as sucessivas incompetências, cá de dentro e lá de fora, nos mergulharam. Já se percebeu que austeridade sem crescimento conduz a um caminho de dezenas de anos de retrocesso e infelicidade dos cidadãos e que, invertê-lo, suporia a coragem de enfrentar um conjunto de interesses poderosos que a esmagadora maioria dos governos europeus não tem nem deseja ter.

Na sua desnorteada tentativa de manter o essencial do sistema, a dupla Merkel Sarkozy, com a conivência da nomenklatura política do Velho Continente, afundou a Europa por ser incapaz de assumir que o que se está a passar é uma luta de morte entre a democracia, com o seu sistema de mandatos e de representação plural dos interesses de uma sociedade, e um sistema financeiro desregulado, que não olha a meios para continuar assim mesmo, sem controlo capaz de lhe tolher os movimentos e de lhe impor leis face à economia real. É isto que, neste momento, deve ser a prioridade e o sentido de qualquer batalha política: exigir que os governantes exerçam os seus poderes  em favor da imensa maioria e não de uma ínfima minoria sem ética, nem compaixão.