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Um caminho muito estreito

Áurea Sampaio

Atacar os lobbies e a corrupção é a única forma capaz de alargar o estreito caminho de Passos para o sucesso

Áurea Sampaio

Talvez nunca se tenha visto um vencedor tão pouco eufórico, na noite eleitoral. Nem mesmo o facto de ter suplantado largamente as expectativas que lhe davam uma margem de vitória bem mais estreita do que aquela que realmente alcançou, ou o facto de ter dizimado o seu principal adversário o fizeram abandonar a fleuma com que encarou esta dificílima campanha. Se ficou satisfeito - e deve ter ficado - com o resultado (abaixo das previsões) obtido pelo seu aliado "natural", também não o deu a entender, limitando-se a reafirmar o esperado: que conta com o CDS para formar Governo. Percebe-se o comportamento de Pedro Passos Coelho. Na dramática situação em que se encontra o País, ninguém compreenderia sinais de arrogância e muito menos comemorações despropositadas. Ele também sabe que, face às medidas impopulares que rapidamente vai ter de tomar, deverá bater o recorde de primeiro-ministro com o menor período de estado de graça da história da democracia portuguesa. A seu favor joga a circunstância de não ter enganado ninguém sobre as suas opções políticas ou a extensão das medidas que defende, mas também não ignora que muitos dos votos que recolheu resultam menos de uma adesão genuína que de uma enorme rejeição de José Sócrates e da convicção de muitos eleitores de que o primeiro-ministro demissionário já não servia os interesses do País. 

Na própria noite da vitória eleitoral, Passos avisou que o próximo futuro é sangue, suor e lágrimas - uma repetição do que andou a dizer na campanha e que os seus adversários se encarregaram de amplificar. Daí que continuar a bater na mesma tecla é completamente despropositado. Agora, o que as pessoas querem são ideias e projetos mobilizadores, objetivos que as façam acreditar na existência de uma luz ao fundo do túnel. O que será uma missão praticamente impossível, quando vamos viver de empréstimos e com um montão de credores à porta. O próximo Governo vai, além disso, arrostar com a hostilidade dos sindicatos e a marcação cerrada da esquerda parlamentar mais radical, que já prometeu mobilizar a rua contra as medidas acordadas com a troika. 

A tudo isto tem de se juntar a desconfiança cada vez maior dos portugueses face aos políticos. Os resultados crescentes da abstenção foram, mais uma vez, a prova de que já não bastam os apelos para sensibilizar os milhões de portugueses descrentes das virtualidades do atual sistema. Os lobbies, as corporações, os poderes fáticos e a corrupção de que tão pouco ou nada se falou na campanha eleitoral vão corroendo as bases da nossa democracia e minando a relação dos cidadãos com as instituições que deviam estar ao seu serviço. Atacar essa teia e regenerar o Estado é a única fórmula eficaz de restaurar a confiança dos portugueses e, de certo modo, fazê-los entender que há uma contrapartida aos sacrifícios que lhes estão a ser exigidos. Terá Passos Coelho coragem para o fazer? Infelizmente, o líder do PSD não deu sinais nesse sentido, durante a campanha eleitoral, mas esta é a única forma capaz de alargar um pouco o estreito caminho de que dispõe para um mandato com um mínimo de sucesso.