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Áurea Sampaio

Pela primeira vez, vemos o PR agir de forma inconsequente e, na aparência, sem norte

O que aconteceu entre a passada sexta-feira,18, e segunda-feira, 21, para levar Cavaco Silva a demitir o seu assessor Fernando Lima? O que se passou entre o momento em que o Presidente da República fez declarações que pareciam corroborar notícias segundo as quais o Palácio de Belém desconfiava estar sob vigilância ilegal de meios ligados ao Governo e/ou ao PS e o dia em que cortou a cabeça ao seu homem de confiança, ao longo de mais de vinte anos? É preciso não esquecer que quando o Chefe de Estado afirmou, dia 18, que não ia falar sobre a alegada vigilância sobre a Presidência - para logo anunciar que, a seguir às eleições pediria "mais informações sobre questões de segurança" -, tinha vindo a público, nessa manhã, o famigerado e-mail que denunciava Lima como autor da fuga de informação comprometedora para Belém. Na altura, as palavras de Cavaco Silva não só foram entendidas como uma espécie de cobertura ao seu assessor, como um indício de que, efectivamente, algo de muito grave se estava a passar. Para tentar aquietar todas as interrogações que já então se levantavam, o Presidente afiançava que não ia mais longe, devido a estar em curso o período eleitoral, mas garantia esclarecimentos após o sufrágio do próximo domingo, 27. Três dias depois, tudo mudou. Lima foi sumariamente despedido, sem explicações de Belém, sendo que, com este gesto, Cavaco contradiz tudo o que, por gestos e palavras, se tinha comprometido a fazer.

Esta actuação não casa, de resto, com a imagem que o actual PR foi construindo ao longo de muitos anos de vida pública. Foi Cavaco quem defendeu a importância da estabilidade como factor importantíssimo para o desenvolvimento das organizações; foi também ele que atribuiu à credibilidade um valor determinante para a avaliação dos vários actores sociais; foi ainda ele que fez da sua própria previsibilidade um activo elevado no mercado dos agentes políticos. Com estes ingredientes definiu um método, traçou um caminho e ergueu uma imagem. Agora, seja qual for a realidade deste caso nebuloso, a verdade é que, pela primeira vez, vemos o actual Presidente da República a agir de forma inconsequente e, na aparência, sem norte. Seja através de silêncios inexplicáveis ou de omissões perigosas, o certo é que a actuação de Cavaco Silva nesta questão corre o risco de abalar gravemente o seu prestígio. O Chefe de Estado deve ao País explicações urgentes e tem de compreender, de uma vez por todas, que nem sempre o silêncio é de ouro.

Quando o circo levantar a tenda e a realidade nua e crua se impuser, vamos conhecer, em toda a sua extensão, a exactidão dos números e as medidas com que teremos de continuar a enfrentar a crise. O Governo diz que o défice é se 5,9% (há economistas independentes que acreditam andar à volta dos 8%); a OCDE garante que o desemprego atingirá 650 mil portugueses, no próximo ano, 11,7% da população activa; a dívida pública, dizem números oficiais, anda perto dos 80% do PIB; a queda das receitas da Segurança Social, de Janeiro a Agosto, atinge 900 milhões de euros... Eis o que os "casos" da campanha conseguiram ocultar.