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Requiem

Áurea Sampaio

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Ao divulgar a carta de demissão, Gaspar quis deixar claro que não acredita no Governo

Áurea Sampaio

A saída de Vítor Gaspar do Governo dá bem a ideia do modo de funcionamento deste Governo e do seu total isolamento face ao País. Um ministro que pediu para sair há oito meses e que reforçou esse pedido em maio último, acabou por ser substituido por uma subordinada, debaixo de fogo da oposição e da opinião pública, devido ao seu envolvimento nos polémicos contratos swap. No momento em que escrevo (terça-feira, 2), ainda não é possível reconstituir todo o puzzle desta demissão, mas parece evidente terem existido fatores que a precipitaram. É óbvio que Gaspar pode ter ficado furioso com o apoio da maioria a seis diplomas do PS em matéria de crescimento e emprego, sexta-feira passada, no Parlamento; ou não ter gostado nada do acordo subscrito pela equipa de Nuno Crato com os sindicatos dos professores; ou pode ter-se sentido mais em causa com a divulgação do monstruoso défice do primeiro trimestre, de 10,6 por cento. Tudo deve ter pesado, mas algo mais precipitou a absurda substituição do mais poderoso ministro do Governo pela sua secretária de Estado. E convinha saber o que se passou mesmo, pois qualquer facto desconhecido pode ser essencial para compreendermos a real situação do País.

Independentemente do sucedido, a escolha de Passos Coelho transmitiu aos portugueses a convicção de que não tem alternativas. Como acontece quando os governos estão no limite, o primeiro-ministro foi obrigado a recrutar no seio do próprio Executivo e, mesmo aí, não terá conseguido convencer Paulo Macedo, a figura mais consensual e equilibrada para conduzir as dificílimas negociações que se seguem, quer com a troika e os parceiros sociais sobre a reforma do Estado, quer com o BCE que desembarca em Lisboa em setembro, para negociar o programa cautelar. Passos optou por uma figura que lhe assegura a continuidade das políticas e que é, sobretudo, alguém da sua total confiança no Governo. Ora, a questão da confiança está pelas ruas da amargura, no interior da maioria. Os conflitos violentos entre os parceiros da coligação ou entre ministros e as reiteradas fugas de informação servindo quer uns, quer outros grupos dentro do Executivo têm exposto as debilidades da gestão do primeiro-ministro. Debilidades que Vítor Gaspar pôs a nú na sua carta de demissão, ao pressionar Passos quanto às questões de liderança. Ao fazê-lo, o ex-ministro das Finanças está a fragilizar ainda mais o chefe do Governo, que mais do que uma vez teve de socorrer-se do Presidente da República para caucionar as suas políticas impopulares.

Esta carta é, de resto, uma autêntica sentença de morte, uma espécie de requiem ou toque a finados sem hipótese de redenção. Ao divulgá-la, Gaspar tentou controlar ao máximo a contra-informação própria destes processos, mas quis, também, deixar claro não acreditar numa equipa onde não há coesão nem solidariedade. Mais, ao assumir ter perdido a credibilidade devido ao repetido incumprimento das metas orçamentais, o menino querido dos credores e dos mercados está, no mínimo, a estender essa falta de crédito ao primeiro-ministro, que sempre o apoiou contra tudo e contra todos. Gaspar sai e este podia ser um momento positivo, mas vai ser um pesadelo para uma maioria cada vez mais desnorteada. A demissão de Portas, anunciada à hora de fecho deste texto, vem apenas confirmar que a vida deste Governo não será longa.