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Qual 'novo ciclo'?

Áurea Sampaio

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Não há pátria sem patriotas e são estes que fazem falta a governar Portugal

Áurea Sampaio

Já aí está o terceiro orçamento do Governo Passos/Portas, o tal que foi precedido de anúncios grandiloquentes sobre o "novo ciclo" e de  promessas cheias de música celestial para ouvidos incautos. Paulo Portas - what else? - foi o primeiro a decretar a boa nova: 2014 não traria mais austeridade, apenas "várias pequenas e médias poupanças" capazes de resguardar a economia, "preservar o emprego e a paz social". Não foi preciso muito tempo para se perceber que, mais uma vez, o vice-primeiro-ministro anda literalmente aos papéis dentro do Governo. Ele afirma, garante, afiança, promete... mas, depois, sai tudo ao contrário. Só que, desta vez, o primeiro-ministro ajudou à festa e resolveu proclamar o requiem sobre a austeridade naquele bate papo com a "sociedade civil" promovido pela RTP. Quem vive fazendo dos desejos realidade acreditou e suspirou de alívio; quem há muito aprendeu a desconfiar destas criaturas não se espantou quando, pouco tempo depois, a referência perturbadora de Passos Coelho à iminência de um "choque de expectativas" veio pôr os pontos nos ii. O Orçamento de Estado para 2014 é austeridade pura, é tão impossível negá-lo como impossível parece aos especialistas conseguir cumpri-lo. 

Vítor Gaspar já lá vai, mas o seu espetro continua a vaguear entre S. Bento e o Terreiro do Paço, no desassossego próprio de quem não consegue descansar em paz. Ele deixou uma carta, espécie de legado político, na qual faz uma autocrítica, expõe fragilidades, denuncia a falta de liderança. Mas de nada serviu. E como poderia servir se o líder é o mesmo e se o próprio Gaspar não resistiu a escolher o sucessor, no caso a sua mais fiel discípula, a quem fez questão de conduzir nesses rituais iniciáticos pelas chancelarias europeias? Maria Luís Albuquerque é a versão travestida do Vítor Gaspar que conhecemos, tão ávida quanto ele de cortes cegos, igualmente insensata na avaliação política dos seus atos. Pagam sempre os mesmos, aumentam-se impostos e de fora ficam os setores protegidos - nada de novo no reino de Portugal. É verdade que, desta vez, o "ajustamento" vem do lado despesa e não tanto da receita, mas o problema é que nada fundamenta estes cortes no Estado. Não há um plano coerente, uma justificação, uma aposta. Aliás, dificilmente se acredita que os próprios governantes saibam o que andam a fazer, como bem se percebe pelos relatos dos conselhos de ministros onde ninguém se entende, com contas de última hora e acusações de falta de seriedade entre pares.

Quem já deve ter percebido o buraco onde se meteu foi Pires de Lima. Está à vista que o problema da Economia não era o ministro Álvaro, é mesmo uma questão de orientação política. O caminho é empobrecer, não é criar riqueza. A assombração de Vítor Gaspar, mais uma vez. O País definha económica e moralmente. Não há rumo, só humilhação. Veja-se a miserável intromissão de Bruxelas sobre o Tribunal Constitucional, a carta ameaçadora dos chineses da EDP ou a chantagem angolana. Entre as oposições não se vislumbra alternativa sólida à vista, todas acantonadas nos seus jogos de poder; na sociedade civil, corporações e lóbis movem-se para conservar as prebendas. Na última edição do Expresso, Henrique Monteiro diz que tem "Saudades da Pátria". Percebo-o muito bem, mas não há pátria sem patriotas e são estes que fazem falta a governar Portugal. Esses, sim, poderiam levar-nos ao tal novo ciclo.