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O povo (ainda) é sereno

Áurea Sampaio

A serenidade esfumar-se-á, quando as pessoas se convencerem de que os sacrifícios impostos não vão melhorar as suas vidas

Áurea Sampaio

Foi muito elucidativo assistir ao debate do programa de Governo. Os principais protagonistas mudaram de lugar... e os argumentos também. Agora, já vale adotar medidas que o atual primeiro-ministro, enquanto candidato do PSD à chefia do Executivo, rejeitara; também já parece curial invocar desconhecimento sobre o verdadeiro estado das contas públicas ou dar prioridade ao aumento dos impostos em relação aos cortes nas despesas; enfim, deixou de ser heresia não tirar do bolso um plano milagroso para fazer crescer a economia.

Sim, é verdade, o Governo chegou agora e o tom grave e cordato de Passos Coelho e da sua equipa teve o condão de acalmar o clima político até há pouco dominado pela figura de um primeiro-ministro cuja presença deixara de ser autêntica, dominada que foi pelo excesso de encenação e de uma soberba que cada vez mais o afastava do mundo real.

Mas é bom não esquecermos o início de Sócrates. Também ele surgiu como uma lufada de ar fresco perante os desatinos do Governo Santana Lopes. Também ele desembainhou a espada do justiceiro moralizador. Também ele explorou o filão da credibilidade externa, fazendo do combate ao défice uma espécie de ritual de passagem para o panteão onde só têm assento alguns, pouquíssimos, imortais.

É importante este regresso ao passado quando a tentação é diabolizar tudo o que ficou para trás, em vez de aí ir colher os ensinamentos necessários a não se repetir os mesmos erros no futuro.

Todos os governos merecem o benefício da dúvida e este, ao contrário do que seria de esperar, até está a tê-lo. Apesar do programa da troika e da anunciada intenção (em parte já concretizada com a fatia cortada ao subsídio de Natal) de o transcender, o povo está sereno. Mas essa serenidade esfumar-se-á, quando as pessoas se convencerem de que os sacrifícios impostos não vão melhorar as suas vidas. Ora, a forma como este governo começou não dá bons indícios nesse sentido. Antes pelo contrário. Perante as mesmas velhas receitas de sempre corte, corte e mais corte no rendimento de quem vive do seu trabalho, é lícito perguntar: será que alguém sabe como sair deste ciclo infernal? Hoje, fala-se muito das nossas diferenças em relação à Grécia, mas há um aspeto essencial de que pouco se fala. A Grécia iniciou há um ano os seus planos de austeridade, nós já os vivemos desde 2003. Com intermitências eleitorais ou aplicações pouco escrupulosas, é certo, mas a classe média portuguesa vem empobrecendo desde então. A realidade é que os dois países não melhoraram. Os sacrifícios não impediram o afundamento de Portugal com o consequente recurso à ajuda externa. A Grécia já vai no segundo pedido de ajuda e, mesmo assim, a bancarrota parece inevitável. Até onde será possível humilhar e asfixiar este país e quais as consequências disso para a sobrevivência da Europa? Eis a pergunta de um milhão de dólares.

Perante tanta desorientação, deixo mais algumas questões. Já alguém estudou qual o impacto da subida do IVA no aumento do desemprego e na falência de empresas viáveis? Só se fala da importância das exportações, mas é igualmente importante produzir para o mercado interno, evitando as importações. Como fomentar a produção nacional no seu todo por forma a obter resultados rápidos? Impor a diminuição da taxa social única e subir o IVA, para compensar, não é matar umas empresas para ajudar outras a sobreviver? Aguardemos o plano prometido pelo Governo. Entretanto, o povo continua sereno, é certo, mas alguém garante tanta acalmia?